Saiba mais sobre o Afrofuturismo na música

Janelle Monáe

Quando falamos de Afrofuturismo na música o primeiro nome que vem em mente é o de Sun Ra, principal influência no surgimento do movimento nos anos 1960.

Ao longo das décadas diversos artistas negros beberam e bebem da fonte do afrofuturismo, usando trajes futuristas e experimentando em suas composições musicais enquanto destacam o protagonismo negro e a ancestralidade.

Sun-Ra in A Joyful Noise
Sun-Ra in A Joyful Noise

Sun Ra era o pseudônimo de Herman Poole Blount, nascido no Alabama, ele se denominava o “Deus da Raça”, e afirmava ser nativo do planeta Saturno, além de dizer que já havia sido abduzido e tido contato com extraterrestres. “Acreditava que o futuro para os negros norte-americanos era intergalático, que haveria um retorno a Saturno, essa seria a libertação do seu povo. Esse retorno não necessariamente é físico, pode ser entendido como espiritual ou cultural”.

Na década de 1960, com a sua Sun Ra Arkestra, revolucionou o Jazz, apesar de ser considerado excêntrico pelo seu visual e atitudes, não há dúvidas que o seu trabalho foi fundamental para pensar o protagonismo negro no futuro, influenciando artistas na música, literatura, artes visuais e cinema.

Alguns estudiosos acreditam que Sun Ra foi uma forte influência no trabalho de um certo cantor que dizia ter vindo de outro planeta. David Bowie bebeu direto da fonte de Sun Ra, quando nos apresentou o seu Ziggy Stardust e os Spiders from Mars, desde a história de ter vindo de um outro planeta até a estética que emprestava elementos egípcios e africanos.

Não há dúvidas de que Sun Ra foi o primeiro a explorar a criação de uma persona artística vinda do espaço. A principal diferença entre os dois é que Sun Ra nunca abandonou a sua persona artística, enquanto Bowie viveu o seu Ziggy Stardust por apenas cinco anos. O trabalho de Sun Ra foi fundamental para um movimento que só ganharia nome décadas depois.

David Bowie e Sun Ra - afrofuturismo
David Bowie e Sun Ra

“O que nós definimos hoje em dia como ‘Afrofuturismo’, não era nada mais que experimentação musical, trajes legais ou até mesmo reconhecimento acadêmico. As ideias e filosofia de Sun Ra, também eram sobre melhorar a vida das pessoas negras: ele começou a fazer música antes do voto universal ou da luta pelos direitos civis.” – No site The Guardian.

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George Clinton, líder dos grupos Parliament e Funkadelic, foi um dos músicos das décadas seguintes que se inspirou no trabalho de Sun Ra. O visual de sua banda e estilo fazem referência direta com o trabalho de Sun Ra.

Também não podemos deixar de citar o trabalho da cantora Betty Davis, que foi fundamental na virada de carreira de seu então marido, Miles Davis. Após se separar do músico ela saiu em carreira solo, seu álbum “They Say I’m Different” de 1974, já trazia um visual futurista que misturava funk com Glam Rock. Na década de 1970 também temos o trio de glam rock Labelle, que influenciou diversas bandas de rock da época.

Betty Davis - Afrofuturismo
Betty Davis

Outra artista que emergiu trazendo elementos de afrofuturismo em o seu trabalho foi Grace Jones. Considerada a diva máxima do pop, usou de misturas e experimentações tanto estéticas quanto musicais em seu trabalho, que se tornou um marco da cultura pop ao misturar elementos de androginia com a estética negra, enquanto fazia músicas que mesclavam rock, reggae e pop com o som típico dos anos 1980. Na década de 1980 também temos que destacar Prince como principal referência na música e no visual e Afrika Bambaataa no campo do Hip Hop.

Nas décadas seguintes outros artistas usaram referências de afrofuturismo em seu trabalho, principalmente na cultura pop. Em 1997 Erykah Badu lançou Baduizm, álbum que foi referência conceitual e estética, abrindo portas para outros artistas de R&B que surgiram nessa década. Podemos citar também Drexciya e o seu álbum The Quest (1997), junto com o OutKast e o seu trabalho Aquemini (1998).

Também nos anos 1990 temos o clássico videoclipe da música “No Scrubs” do TLC, em que o trio utiliza uma estética androide em sua coreografia e calças cargo “cyber punks”. Esse trabalho influenciou a cantora Janelle Monáe, principal nome quando falamos em afrofuturismo atualmente.

Nos anos 2000 Janelle Monáe encarnou Cindi Mayweather, um androide que seria o alter-ego da cantora que habitaria a Terra por volta dos anos de 2700.

Monáe também lançou o trabalho Metropolis (2007), um álbum conceitual de Sci-Fi que faz referência ao filme de 1927 de Fritz Lang e o álbum The ArchAndroid em 2010.

Na história, uma androide se apaixona por um humano e descobre que ela é a salvadora prometida destinada a salvar os androides e as duas raças. Ela então retorna como a “Electric Lady”, pronta para salvar as duas raças do “The Great Divide”, uma sociedade secreta que usa viagens no tempo para suprimir a liberdade e o amor.

Janelle Monáe
Capas dos álbuns de Janelle Monáe.

Além de Janelle, nos últimos anos vários artistas estão usando a estética e elementos afrofuturistas em seu trabalho, mesclando a ancestralidade africana com Sci-fi e tecnologia, tanto em experimentações musicais quanto no visual. Podemos citar Solange, Willow Smith, Laura Mvula, FKA twigs, Rihanna, Oshun, a dupla franco-cubana Ibeyi, o grupo de hip hop Shabazz Palaces entre outros.

Aqui no Brasil também temos vários artistas que representam o afrofuturismo em seu trabalho, nomes como Karol Conká, Tássia Reis, o grupo musical Senzala Hi-Tech, Rico Dalasam e Ellen Oléria, que lançou o se álbum “Afrofuturista” em 2016. A tendência é que esse número aumente conforme o conceito e as referências se espalharem pela cultura pop nacional.

Ouça a nossa playlist Afrofuturista:

Fontes:
https://www.freetheessence.com.br/unplug/interventores/afrofuturismo/
https://www.geledes.org.br/dossie-afrofuturismo-saiba-mais-sobre-o-movimento-cultural/
http://newyeah.com.br/afrofuturismo/
https://www.theguardian.com/music/2014/jul/24/space-is-the-place-flying-lotus-janelle-monae-afrofuturism
https://www.nytimes.com/2016/12/12/fashion/afrofuturism-the-next-generation.html
http://mashable.com/2016/02/18/afrofuturism-playlist-2016/
http://thequietus.com/articles/18935-sun-ra-and-his-arkestra-to-those-of-earth-and-other-worlds-review
http://www.anothermag.com/fashion-beauty/7791/a-history-of-female-afrofuturist-fashion
http://www.transchordian.com/2013/10/metropolis-janelle-monaes-hidden-sci-fi-epic/

Sou formada em Artes Visuais, apaixonada por arte, música, livros e HQs. Editora nos blogs Las Pretas e Sopa Alternativa.