Afrofuturismo nas Artes Visuais

Afrofuturismo nas Artes Visuais

As artes visuais são uma categoria onde o afrofuturismo ainda tem poucos artistas representantes, mas é possível encontrar trabalhos que são muito importantes para o afrofuturismo nas artes visuais. Artistas que usam a imaginação na busca de pensar identidades para o povo negro, sempre olhando para o passado e o presente, imaginando futuros possíveis e melhores.

Laolu Senbanjo

Laolu é artista visual e performer, cantor, compositor e músico se considera mantenedor da cultura Yoruba. Nascido na Nigéria e atualmente vivendo no Brooklyn, EUA.

É responsável pelo projeto Sacred Art of the Ori, uma experiência de pintura corporal íntima e espiritual entre ele e seus modelos. As pinturas são uma prática religiosa Yoruba, que tem o objetivo acordar o Deus dentro de você e criar uma conexão com Ori. Ele conheceu essa prática através da sua avó paterna que influenciou fortemente a sua arte.

Ori significa essência, sua alma seu destino, eventualmente se torna um mantra, quando ele trabalha com a/o modelo acredita que se tornam um e que os desenhos mostram o que há dentro da alma.

Ori Yoruba Ritual Face Painting by Laolu.  Performed on Azizaa.  Timelapse by Mariona Lloreta.  Music “Enimayo” by Laolu.

Laolu também foi responsável pelo conceito da Sacred Art of the Ori que faz parte do projeto Lemonade da Beyoncé.

Jean-Michel Basquiat

Basquiat é a referência quando falamos de arte urbana e grafite, nasceu em Nova York, 1960 e faleceu em agosto de 1988.  Começa a grafitar pelas ruas do Brooklyn na década de 1970, trabalhos muito impactantes, cheios de crítica social, e mensagens provocativas, além do traço que lembra muito arte primitiva característica do seu estilo.

Inicialmente seu trabalho era desconhecido assinado como “Samo”, a partir da década de 1980 ele sai do anonimato. Torna-se amigo do Andy Warhol, e com ele desenvolve diversos projetos. Pode ser considerando um dos primeiros artistas negros a ganhar reconhecimento dentro do mundo das artes enquanto vivo, apesar da segregação, seus desenhos rompem barreiras. O artista que pintou telas por 50 dólares enquanto morava na rua e não tinha um emprego formal, com 22 anos pintou outra por 110,5 milhões.

Martine Syms

Uma artista conceitual que tem um projeto chamado The Mundane Afrofuturist Manifesto, realizado em 2013.

Esse projeto é uma declaração poética para quem quiser se juntar a um “futuro de imaginação negra”. O texto também apresenta um ponto de vista que trás o negro para o protagonismo nos obrigando a nos responsabilizar pelo futuro.

Krista Franklin

SEED (The Book of Eve) for Octavia E. Butler, Artist Book, Detail, 2006

Seu trabalho é uma mistura de poéticas, cultura popular e a história da diáspora africana. Contém elementos do fantástico, surrealismo, fotografia negra, mitologia e consciência coletiva. Sua arte é apresentada através de colagens, Krista diz que seu trabalho surgiu da sua frustração, pois se considerava uma desenhista medíocre ‘comecei a recortar imagens e reconstruí-las. Mais tarde isso se tornou mais intencional, e eu estava usando os atos de ‘cortar’, desconstruir e reconstruir para descolonizar meu olhar e narrativas, que foram doutrinados sobre mim mesma, minha comunidade e meus ancestrais como uma mulher afro-americana/negra.’ 

Krista acredita na importância política das narrativas com mulheres e pessoas não brancas como protagonistas, em espaços criativos e imaginativos com diferentes possibilidades e visões. Ela trabalha pensando na diáspora africana do século 21 e tem com inspiração a literatura de Octávia E. Butler, referências que proporcionam ao seu trabalho a colisão do passado, presente e futuro.

Leia também: Literatura Afrofuturista

Olalekan Jeyifous

Artista e designer, Olalekan nasceu na Nigéria e também mora no Brooklyn atualmente, formado em arquitetura pela Cornell University. Ele faz trabalhos onde imagina como seria a Nigéria no futuro.

Olalekan fez uma trabalho em colaboração com Wale Oyejide, (já falamos sobre a sua linha de roupas masculinas aqui), esse trabalho se chama Ikire Jones: Africa 2081 A.D., uma representação de diversos lugares da África no futuro ele estreita os laços entre arquitetura e estética. Outro trabalho que esteve em exposto no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa foi o Shanty Megastrutures, que apresenta renderizações virtuais em 360º das metrópoles africanas. Veículos voadores e prédios modernos em contraste com pessoas vestindo roupas que remetem a cultura ancestral.

Nairobi Jump Center [Nairobi 2081 A.D.]
Reneé Cox

Nascida em 1960 na Jamaica Renné Cox é uma das artistas afro-americanas mais controversas da atualidade usando seu corpo nu ou vestido para celebrar a força da mulher negra e criticar a sociedade frequentemente racista e sexista. No ensaio fotográfico mais icônico ela encarna Raje uma super heroína, que liberta o Uncle Ben e a Aunt Jemima, esteriótipos negros dentro de produtos de consumo comum no EUA. Fotos grandes e coloridas que forma parar no jornal francês Le Monde.

Yo Mamas Last Supper, 2001
Liberation of Aunt Jemima e Uncle B.

 

Na série Flipping The Script Cox faz a reinterpretação de vários ícones da arte e religiosos, Michelangelo, David e La Pietá. E no ensaio Yo Mama’s Last Supper, Reneé faz uma releitura da obra de Leonardo Da Vinci, esse trabalho causou a fúria de grupos católicos, até mesmo o prefeito de Nova York na época Rudolph Guiliani, quis dar um pitaco chamando uma comissão para investigar o valores de decência da obra. Renné apenas disse que toda esse fúria foi causada porque ela é uma mulher negra, mas que não tem nada a perder.

 

 

Cyrus Kabiru

Cyrus é uma artista plástico autodidata do Quênia, nascido na capital Nairobi. Seus trabalhos são representações bem humoradas da vida contemporânea no seu país. Seus óculos são seu trabalho mais conhecido os C-Stunners, feitos de material reciclado. Trabalho inspirado pelo seu pai que lhe disse quando criança que ele deveria buscar sozinho uma forma de ter os óculos que tanto queria já que sua família não tinha condições de lhe dar.

Ao encontrar material no lixo tornou-se uma artista. Seus trabalhos estão entre a moda e a arte, e capturam a sensibilidade de uma geração de jovens.

Robert Pruitt 

A Holy Motherfucker, 2017

 

Pruitt nasceu nos Estados Unidos em 1985, Huston, Texas. seu trabalho é focado principalmente em desenhos figurativos, mas também envolvido com fotografia, escultura e animação. O assunto da sua arte é o corpo negro e a sua identidade, Robert diz através do meu processo de desenho, as figuras do meu trabalho se tornam perfis enraizados em uma etnografia fictícia.

Quando trabalha com esculturas usa materiais como garrafas, cordas e chiclete.

Usa referências do Hip Hop, ciência, Sci-fy, histórias em quadrinhos, culturas tradicionais, lutas políticas, e acredita que através da narrativa que ele cria com seu trabalho uma amplitude do que é a experiência negra na diáspora é possível criar uma sensação de comunhão e humanidade que encontra carente de muitas formas de representação negra.

 

 

Awol Erizku

Falamos do trabalho de Awol junto com a cantora Beyoncé, seu trabalho ele sempre tem a preocupação de fotografar pessoa não-brancas, e no projeto com a cantora chamado Have Three Hearts, ele traz elementos da arte renascentista misturados com a mitologia africana. Em seus trabalhos ele tenta mostrar o negro se reconciliando com a sua origem africana ao mesmo tempo que não deixa de lado a cultura ocidental.

Leia também: Awol Erizku: além do ensaio com a Beyoncé

Referências:

Por que o afrofuturismo é o movimento artístico que precisamos em 2017
Jean-Michel Basquiat ganha mostra no Masp em 2018
Como Jean-Michel Basquiat ultrapassou o limite do que é ser um artista norte-americano
Conheça o trabalho de Cyrus Kabiru
Cyrus Kabiru: “Creo en la idea de dar una segunda oportunidad a la basura”

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.