Afropunk, Fashion Rebels, Geração Tombamento e o Empoderamento Estético

Afropunk , geração tombamento

Os movimentos de empoderamento estético negro estão acontecendo em diversos lugares e se inspirando uns nos outros. Três movimentos ganharam destaque e reconhecimento tornando-se de estrema relevância na construção das diversas identidades negras. Vamos falar sobre eles?

Afropunk

Afropunk
Afropunk

O Afropunk além de um movimento é um festival de três dias que surgiu no Brooklyn. Em 2003 foi lançado um documentário com o mesmo nome produzido pelo Matthew Morgan e dirigido por James Spooner. O documentário falava sobre os jovens negros da cena punk/indie/rock/hardcore. O documentário foi muito bem recebido e fez com que o pessoal que curtiu se juntasse através dos fóruns na internet imaginando uma forma de se conhecer, assim, em 2005 aconteceu o primeiro Afropunk Festival.

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Essa primeira edição rolou no Brooklyn Academy of Music, em Nova York, de forma gratuita. Teve shows, exibição de filmes e até um piquenique, foi o encontro das pessoas refletindo as ideias do documentário. O festival cresceu muito ao longo de todos esses anos e passou a receber atrações de peso como Ice Cube, Janelle Monáe, Jaden e Willow Smith, Macy Gray e Kendrik Lamar, ganhando o mundo. Em 2017 o festival teve edições em mais quatro capitais: Londres, Paris, Atlanta e Joanesburgo.

Fashion Rebels

Fashion Rebels
Fashion Rebels

Os Fashion Rebels não é um festival ainda (infelizmente), mas poderia ser e espero que um dia seja. Maitele Wawe é a cabeça do movimento, um cara que, desde de criança, sempre foi criativo e que quando adulto teve a liberdade de fazer as suas escolhas quanto ao que gostava de vestir. Assim foi influenciando as pessoas pelo seu caminho e os companheiros de movimento Thifhelimbilu Mudau e Sizophila Dlezi com quem idealizou o Fashion Rebels em 2012.

Eles não acompanham as tendências das passarelas, buscam influências e referências em outros lugares, compram roupas de segunda mão nas ruas de Pretória, nas feiras livres e brechós, dando novos significados as peças antigas e abusando da criatividade. Eles misturam cores e questionam gênero, ao compor looks com saias e vestidos. O resultado é o estilo único de cada um deles, construído com o olhar da imaginação e curiosidade na busca de peças e composições que reflitam suas identidades.

A partir da Fashion Rebels surgiu o Social Market, um evento que pensa em colocar Pretória como uma referência também de música, arte, culinária e moda. Sizophila pensa que a moda deve ser se vestir como você se sente e uma ferramenta de expressão. O Social Market é uma lugar para criadores como eles mostrarem o seu estilo e também mostrar quem são.

Geração Tombamento

A Geração Tombamento é um movimento brasileiro que busca o empoderamento das minorias, negros e LGBTTTQ. A galera desse movimento realiza festas como a Batekoo. Esses são espaços democráticos e de equidade onde se é livre pra ser quiser em segurança e reafirmar a cultura negra, também através da música, pagode e funk por exemplo, estilos que sofrem muito preconceito. No Brasil não há um fundador do termo, mas a representante maior é Karol Conka. O rapper Rico Dalassam e a cantora Tássia Reis também são adeptos do estilo, usando roupas coloridas, misturando artigos esportivos com estampas coloridas de tecidos e rompendo com padrões estéticos.

O que esses movimentos tem em comum?

O reconhecimento da estética negra é parte da nossa busca por identidade. Empoderamento é um conceito muitas vezes usado de forma muito simplista, mas que vai muito além dessa camada de rótulos superficiais que encontramos pela internet. A filósofa Djamila Ribeiro (maravilhosa) fala muito bem sobre isso quando fala do empoderamento feminino da mulher negra, um conceito coletivo e não apenas individual. Um ciclo na verdade, onde o coletivo da poder ao indivíduo que influencia o coletivo.

Acredito que o conceito também se encaixa aqui, a estética é sim um forma de empoderamento. Frases como: “Cabelo crespo não é arrumado.” “Cores fortes não combinam com o nosso tom de pele.” “Batom vermelho nessa boca!” “Chama muita atenção, não é legal.” Que negro nunca ouviu isso? Porém em lugares diferentes do mundo esses jovens vem se reconectando com seus corpos e questionando esses padrões, assumindo escolhas ousadas e rebeldes, estão afrontando o mundo.

Isso é de extrema importância já que o racismo nos atribui lugares na inferioridade de forma tão cruel que acabam se tornando “naturais”. Mas, não é natural alisar o cabelo com 10 anos, e as vezes ainda mais cedo. É por isso que esses jovens trazem representatividade. Frequentar esses espaços é oportunidade de encontrar nossos iguais de nos reconectar com a nossa estética e nos encontrarmos também. É importante reconhecer a nossa beleza e exaltá-la da forma que for, já que o racismo nos nega tudo isso, nos colocando na prateleira do exótico, quando não se apropriam da nossa estética.

Esses movimentos são reflexo da nossa luta pela liberdade e reconhecimento da nossa estética e beleza, longe dos moldes do monopólio da moda branca, ocidental. Moda comunica, é um mecanismo de transformação. Eu só comecei a entender o que era ser mulher negra quando anos atrás percebi que meu cabelo crespo é bom e decidi parar de alisar, me encontrar levou anos. Abraçar a nossa estética e ter amor próprio é um ato político.

Referências:

Tudo que você sempre quis saber sobre o Afropunk Festival

Fashion Rebels: A geração tombamento da África do sul

Parem de criticar a Geração Tombamento

O que é o empoderamento feminino?

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.