[Entrevista] Conversamos com a ilustradora “Preta Ilustra”

Preta Ilustra

Aqui no Las Pretas nosso objetivo é dar visibilidade para artistas negros de todas as áreas, nesse processo, que podemos chamar de curadoria, conhecemos pessoas incríveis para além dos seus trabalhos. Pensando nisso decidimos abrir espaço para entrevistar essas pessoas, nos aproximar mais e contar essas histórias pra vocês.

Nossa primeira conversa foi com a Vanessa Ferreira, conhecida como Preta Ilustra no Instagram e Facebook. Desenhista e publicitária da zona sul de São Paulo.

Preta Ilustra
Vanessa Ferreira a “Preta Ilustra”.

Preta Ilustra tem um trabalho necessário. Mulheres negras precisam ser representadas em seus diversos aspectos pois somos diversas e múltiplas. E devemos estar em todos os espaços, cinema, televisão, muros e quadros (inclusive pintando-os). Vanessa viu um lugar onde a gente não estava bem representada e se colocou lá.

Nascida na periferia de São Paulo, na Vila Guarani, região do Jabaquara. Desde pequena sempre quis fazer faculdade, imaginava estudar na Belas Artes, e com a ajuda de uma madrinha, ou mãe adotiva como ela diz, conseguiu trabalhar na Rádio Metropolitana como assistente comercial, sua mãe adotiva ainda pagou o cursinho que a ajudou a entrar na Belas Artes através do ProUni. Uma situação muito longe da realidade de onde ela vinha, Vanessa diz que nem mesmo sua mãe acreditava que isso fosse possível. Hoje ela trabalha como diretora de arte na área da publicidade.

Pra quem é pobre, é só desenho

Primeiros desenhos na escola e Dona Zilda em 2017

Vanessa sempre gostou de desenhar, mas quando criança eram só desenhos. Ela não queria investir, não conhecia ninguém que fosse referência de sucesso como desenhista e sua família não a incentivava. Mesmo assim ela buscou uma formação em que ainda pudesse trabalhar com arte, por isso escolheu o curso de Publicidade e Propaganda.

Infelizmente ela aponta também o fato de que hoje ela busca inspiração em outros artistas, mas não são outros artistas negros, pois é difícil de encontrar. Ela também nos falou sobre outros motivos que dificultam a vida do artista, como os materiais que são muito caros, o custo é muito alto para se manter e se profissionalizar. Sua percepção é de que as mulheres negras que desenham vão pro grafite, elas colocam a sua arte nos muros porque tem mais visibilidade que no papel.

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Faz mais ou menos um ano que voltou a desenhar e que abriu os perfis na internet para divulgar seus desenhos. Quando parte para ilustração e trabalhos reais passa a ter outro tipo de visibilidade. Perguntamos quais são as suas técnicas favoritas e ela diz que gosta de experimentação de testar papéis diferentes, aquarelas e que gosta muito das canetas marcadoras a técnica favorita. Vanessa também ilustra no digital para baratear e  tornar mais acessível para o público que ela quer acessar.

Quando falamos sobre as mulheres que ela desenha, Vanessa diz que buscou referências, mas não existe nada falando de mulheres negras protagonizando essa área. Se existe é muito difícil acessar. E essas mulheres não são desenhadas também, esse é o motivo das suas escolhas.

“Eu desenho mulheres com grandes histórias”

Começar honrando, por isso desenhou a sua avó e outras mulheres que tiveram bastante influência na sua vida. Ela escolhe as modelos de acordo com as histórias delas. Toda mulher negra tem uma história pra contar. Ela desenha essas mulheres da forma que ela vê.

Um dos seus desenhos mais famosos é o da MC Carol, Vanessa fala que particularmente gosta dela para ‘caralho’, pelo seu feminismo, pela forma como ela brigou pelo seu espaço dentro funk, pela sua imagem. A arte “Lute como uma garota” foi um pedido da própria Carol, após a tentativa de homicídio que ela sofreu.

Por fim perguntamos para Preta Ilustra por que ela desenha.

“Eu desenho pra não morrer”. Após passar por relações abusivas e relações familiares conturbadas o desenho a curou da depressão. “O desenho foi um forma que eu encontrei de me ligar com o mundo de estar no mundo, e de continuar conversando com as outras pessoas porque nem isso mais eu sentia vontade.”

Que bom que você se curou, e agora pode ser inspiração para outras mulheres negras por aí.

Veja o trabalho da Preta Ilustra:

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.