[Entrevista] Conversamos com seis garotos sobre autoestima, cabelo e estilo

Cabelo - beleza masculina

Seis garotos entre dezoito e trinta anos nos contam porque resolveram deixar o cabelo crescer e quais cuidados tem com ele.

Nos últimos anos a busca por cabelos cacheados superou a busca por cabelos lisos no Google, ao mesmo tempo em que o empoderamento estético se tornou uma pauta forte para a população negra. Aos poucos, o cabelo crespo deixou de ser um problema e passou a crescer feliz na cabeça de várias mulheres e homens que se libertaram do estigma que o mesmo carregava, mas não sem muita luta. As empresas de produtos de beleza também perceberam esse movimento e começaram a criar e dar mais destaque para linhas voltadas para esse público.

Fala-se muito de cuidados com o cabelo, mas mais voltados para o público feminino, daí surgiu o interesse de saber como os garotos tem se exergado atualmente com todas essas mudanças.

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Eu, particularmente, tenho notado nas ruas uma mudança significativa no visual de homens e meninos negros que passaram a variar os cortes de cabelo, que antes era sempre raspado, deixado rente ao couro cabeludo ou alisado, muitos nem sabiam como era a real aparência dos seus fios antes.

Além de agora surgir um interesse maior por dreads, tranças, coloração e cortes de cabelo variados, há também uma busca por um estilo pessoal que reflita essa estética e uma autoestima recém descoberta.

Como Las Pretas é formado por duas pretas, resolvemos falar diretamente com quem está vivenciando essa mudança e conversamos com seis jovens entre dezoito e trinta anos sobre os cuidados que eles tem com o cabelo, estética masculina e referências de estilo.

A maioria dos nossos entrevistados se interessa por produtos para pele e cabelos, de cremes específicos a óleos vegetais e aprenderam a cuidar de seus cabelos com as mulheres próximas a eles, como mães, tias, irmãs e namoradas. Aliás a presença feminina é uma referência forte para eles quando se trata de aprender a cuidar do cabelo. Além de estarem atentos a tutoriais sobre o assunto na internet e buscarem referências sobre a melhor forma de cuidar dos cachos.

“Meu cabelo sempre foi importante pra mim, uso ele grande desde os 14 anos com Black ou tranças. Procuro sempre ser prático, me preocupo em hidratá-lo, mas não sigo muito uma regra. ” – Diogo Nogue – Artista Visual, 30 anos.

“A relação com meu cabelo hoje em dia é de apreciação e de zelo. Hoje em dia eu posso dizer que gosto do meu cabelo do jeito que ele é. Me traz uma autoestima alta e eu também consigo perceber nas pessoas uma boa aceitação desse cabelo.” – Felipe Camargo Reginaldo – Professor de história e historiador, 24 anos.

João Batista – Empresário, 27 anos.
João Batista – Empresário, 27 anos.

Na infância as histórias se repetem, todos tinham o cabelo raspado ou baixinho e não tinham muito cuidado com o cabelo e com a estética crespa. João Batista, empresário carioca de 27 anos, relata que tinha até um certo asco de ver garotos com o cabelo grande e achava o seu cabelo feio. Após passar por um processo de empoderamento e aceitação passou a amar o seu cabelo.

“Hoje em dia a relação como meu cabelo é a melhor que eu já tive na minha vida inteira, porque até então eu só raspava. Eu sempre tive aquela ideia de que ‘cabelo duro é cabelo ruim’, então eu nunca vi o meu cabelo como um cabelo bonito de fato. Então hoje em dia a relação com o meu cabelo é a melhor de todas.” – João Batista – Empresário, 27 anos.

“Desde de pequeno eu sempre fui muito vaidoso e sempre procurava estar na ‘moda’ por isso sempre que havia oportunidade eu tacava relaxante nele (no cabelo), porque para a sociedade aquilo era o correto. Graças ao meu bom senso, percebi que tudo aquilo não vinha de mim e sim da mídia, porque eles que pregavam o que era bonito e o que era certo.”  – Hugo Costa Silva – Auxiliar de cozinha, 18 anos.

“Quando eu era pequeno eu gostava dele curto, acho que foi influência do meu pai, que me levava para cortar de tempos em tempos. A partir da adolescência, eu tomei um gosto por deixar ele mais longo e espaçar o tempo dos cortes. Atualmente, eu curto ele longo e do jeito que está.” – Luiz Fellipe dos Santos de Freitas – Estudante, 20 anos.

Fellipe Reginaldo – Historiador e professor de história, 24 anos.
Felipe Reginaldo – Historiador e professor de história, 24 anos.

Apesar do avanço que tivemos, muitos ainda precisam deixar o cabelo curtinho ou raspado, por questões profissionais e preconceito. É o caso de Felipe Reginaldo, historiador e professor de história, que só pode deixar o cabelo crescer como queria depois que abandonou o seu antigo emprego e começou a dar aulas. “Passei um bom tempo pensando em deixar o meu cabelo crescer. Só que seja por um emprego, por já estar empregado ou para fazer alguma entrevista, eu acabava cortando o meu cabelo ou mantendo ele curto… Quando eu consegui ter um bom retorno como professor eu deixei o meu cabelo crescer”. Relata Felipe.

A vontade de mudar também impulsinou alguns a deixar o cabelo crescer e fugir do visual de cabeça raspada. A maioria relata que começou a deixar o cabelo crescer de dois anos para cá ou até menos, no caso de Felipe faz menos de um ano que passou, assim como Neiviton Leal, Técnico de Suporte de 18 anos, que está há apenas oito meses com os cabelos naturais. Já o artista visual Diogo Nogue, de 30 anos, relata que sempre quis ter o cabelo grande, mas não tinha coragem, porém aos 14 anos resolveu deixar 0 cabelo crescer e o mantém assim até hoje.

Hugo Costa Silva – Auxiliar de cozinha, 18 anos.
Hugo Costa Silva – Auxiliar de cozinha, 18 anos.

“Até 2015 eu costumava ter o cabelo bem baixo até que tive um choque de realidade: por que eu faço isso comigo?
Percebi que não era diferente, e eu amo ser diferente. Eu gosto de me destacar. E uma das formas que achei foi me aceitar, simplesmente me aceitar, procurei ser feliz da forma que eu sou, pois eu sou único todos nós somos únicos.” – Hugo Costa Silva – Auxiliar de cozinha, 18 anos.

Quando se trata da rotina capilar cada um tem o seu truque. Enquanto João se interessa por produtos para o cabelo que sejam veganos e que não agridam os fios, o Técnico de Suporte Neiviton Leal, de 18 anos, se interessa mais por cortes e formas mais práticas de mudar o visual rapidamente, usando a esponja no dia a dia para o enrolar os cachos. “Após acordar, enrolo com a Esponja. Quando necessário também enrolo no meio do dia”. Conta Neiviton.

E junto com a essa descoberta dos cachos também veio a possibilidade de variar os estilos, com dreads, tranças e coloração. João Batista conta que já experimentou de tudo nos seus cachos, de descoloração a tranças e tonalizantes. Diogo diz que costuma variar o visual com frequência: “Já fiz tranças e dreads de lã, em breve quero fazer dreads com agulha.”

E o estudante Luiz Fellipe dos Santos Freitas conta que também já experimentou mudar o visual com tranças: “Já fiz trança de raiz umas 2 vezes, quando o meu cabelo ficar maior talvez eu faça tranças de raiz fininhas tipo a do Jaden Smith no Karatê Kid.”

Como não poderia deixar de ser, essa mudança de atitude desperta reações diversas nas pessoas. Alguns dos nossos entrevistados relataram que tem recebido comentários positivos e animadores sobre a sua nova estética, alguns até curiosos com o cabelo que antes ficava escondido, mas é claro que o preconceito também faz parte, principalmente em ambientes mais conservadores e menos acolhedores, além de comentários e piadas sem graça.

“Eu percebo de várias maneiras, de muitas maneiras boas e de muitas maneiras ruins, claro. Não dá pra gente ignorar o fato de chegar em certo lugar ou entrar em uma certa loja e as pessoas ficarem olhando de uma certa maneira… Mas isso é uma coisa que não me afeta mais, no começo eu ficava muito ofendido, a partir do momento em que eu me apropriei do fato de que essa é a minha coroa, eu parei de pensar que algum olhar ou alguma risada poderiam me botar pra baixo”. Conta João, sobre os olhares que recebe.

“Geralmente as reações são estereotipadas, quando solto acaba atraindo comentários diversos e pessoas querendo tocar. E quando uso tranças sempre tem perguntas e comentários um pouco racistas”. Relata Diogo Nogue sobre a reação das pessoas com o seu cabelo.

“Depende do ambiente e do perfil das pessoas que estão nesse ambiente. Se o ambiente está mais aberto a diversidade, ou seja não é implicitamente tido como pressuposto que um perfil de pessoa deve frequentar aquele local, tendo a receber olhares mais amistosos, receptivos e elogios etc… Mesmo que o perfil das pessoas que frequentam o espaço seja mais homogêneo e eu seja um outsider no lugar.” – Luiz Fellipe dos Santos de Freitas – Estudante, 20 anos.

E o hábito de cuidar do cabelo acaba levando também a um crescente interesse por moda e beleza masculina, como variações na barba e no estilo pessoal, tendo como grande referência o estilo americano, que é mostrado em filmes, e se destaca em cantores, rappers e celebridades.

Diogo Nogue – Artista visual, 30 anos.
Diogo Nogue – Artista visual, 30 anos.

Como Felipe Reginaldo que se inspirou no visual do vilão Erik Killmonger, interpretado pelo Michael B. Jordan, no filme Pantera Negra. E Hugo Costa, que se baseia no estilo do Brooklyn, Miami e Nova York, nos Estados Unidos, porque, segundo o jovem, lá eles tem orgulho do seu estilo. Assim como Neiviton que também usa algumas referências do estilo americano.

“De vez em quando eu tento “imitar” alguns estilos americanos quando saio para festas, mas no geral eu prefiro um visual mais casual.” – Neiviton Leal – Técnico de Suporte, 18 anos.

Para Diogo Nogue o seu estilo tem a ver coma sua profissão: “Me interesso pela moda em geral como artista, cores e texturas me chamam atenção, atualmente procuro estampas com padrões africanos. Mas gosto de usar roupas básicas sem marcas, imagens e desenhos.”

 

“A nossa comunidade é tão unida em relação a isso que seria injusto eu falar que uma pessoa me inspira e colocar ela em um patamar acima, quando na verdade todos nós inspiramos uns aos outros. Seja um te dando uma dica, seja outro falando como o seu cabelo fica de tal forma… É tudo uma coisa só. E isso é muito bonito.” – João Batista.

E por fim João Batista conta que a inspiração e admiração vem da comunidade negra que também tem o cabelo crespo e cacheado, assumindo isso como verdade e uma forma de resistência. Assim como nas mulheres de sua família, seu namorado, que o apoiou nesse processo de descoberta, e nas pessoas da noite carioca. O que na verdade acaba se tornando uma rede de influência onde todos inspiram uns aos outros, seja com dicas, com apoio, com amor ou com resistência.

Sou formada em Artes Visuais, apaixonada por arte, música, livros e HQs. Editora nos blogs Las Pretas e Sopa Alternativa.