“Ela quer tudo”: 10 motivos para entrar no mundo de Nola Darling

Ela Quer Tudo

Ela quer tudo, (She’s gotta have it) é a nova série da Netflix, criada pelo Spike Lee baseada no filme homônimo de 1986. Preferi não ler resenhas sobre a série para escrever esse post, e ainda não tive a oportunidade de ver o filme, mas li o artigo da Vice sobre a artista Tatyana Fazlalizadeh que colabora com Spike Lee na produção da série. Porque algo que me incomodou inicialmente foi lembrar que sempre que um homem fala sobre o universo das mulheres é da perspectiva dele, e na maioria das vezes não é muito bom, por isso estava com medo de não gostar da série. Essa justamente é uma das críticas ao filme de 1986, apesar dele também ser muito elogiado. Na série fui surpreendida positivamente, acredito que graças a colaboração de Tatyana, as roteiristas e outras mulheres dentro da produção. Estamos em 2017 algumas coisas mudaram, felizmente.

É uma série leve e divertida, assisti em três dias, para aproveitar por mais tempo e poder refletir. Ao longo dos dez episódios somos apresentados a diversas questões que fazem essa personagem ser uma mulher complexa cheia de especificidades, inteligente e carismática, Nola Darling (DeWanda Wise).

Uma jovem artista plástica, que vive no Brooklyn, filha de pais que também são artistas. Ela tenta viver e se encontrar como artista enquanto faz trabalhos regulares para manter as contas pagas. A questão é que Nola tem três namorados, Greer (Cleo Anthony) fotógrafo espontâneo, lindo, narcisista e arrogante, Jaime (Lyriq Bent) maduro e protetor e Mars (Anthony Ramos), jovem e divertido.

Então, decidi fazer um lista com 10 motivos porque eu gostei da série.

Porque eu gosto de listas mas, contém spoilers, cuidado hein:

1º Nola Darling

Nola Darling é interpretada pela atriz DeWanda Wise e sua beleza é inquestionável, mas para além da aparência, a sensibilidade da atriz ao interpretar uma mulher extremamente complexa também é inquestionável. Nola é divertida e consciente de quem é do que ser uma mulher negra representa dentro da nossa sociedade. Força e fragilidade caminham juntas nela, que sim tem seus defeitos e seus mecanismos de defesa e faz terapia para lidar com seus conflitos e traumas.

Ela é consciente das escolhas que faz, o que assusta suas amigas e seus namorados. As amigas a julgam, e os namorados a todo tempo tentam controlar essa a mulher que impõe as regras da relação. Nola quer ser quem deseja e não quem os outros acham que ela deve ser. Percebem a força disso?

2º Uma mulher negra e o poliamor

Me diz aí, quantas histórias sobre mulheres negras falando sobre isso você conhece?

Pois é, só por tratar do assunto já vale. Uma mulher negra se relacionando com homens negros é incomum. Reparem que Mars é latino de pele clara e bem longe do estereótipo do galã branco esperado.

E Nola declara-se abertamente adepta do poliamor e pansexual, cada uma das relações a completa de uma forma diferente e não apenas sexualmente. As relações são mostradas em diversos aspectos, mesmo com as diversas regras que Nola tem para administrá-las. É importante ver uma mulher negra longe de diversos estereótipos e protagonista de temas já tratados pela branquitude há tempos.

Opal (Ilfenesh Hadera), sua namorada é um respiro para a personagem e um contraste na dinâmica dos relacionamentos heterossexuais de Nola. É fato que ao se relacionar com homens o machismo é um problema que nós temos que lidar. Ao se relacionar com uma mulher o machismo não é uma questão latente e nos apresenta outras questões.

3º É mais que uma série sobre relacionamentos

Nola também é uma artista, é filha, é amiga, é professora de artes em uma escola. Nola não é apenas suas relações amorosas. A série ganha muitos pontos ao não focar apenas nisso e nos mostrar outros ângulos da personagem e dar tempo de tela para isso, para mostrar que outras coisas acontecem. Não apenas na vida dela, mas com os personagens coadjuvantes também.

O nome da série pode sugerir que tudo que a Nola quer são os três namorados, que está tudo ligado à vida sentimental, porém já no primeiro episódio vemos que não se trata apenas disso, trata-se sim de liberdade da mulher negra, de sair na rua e não ser assediada, liberdade profissional e emocional de ser responsável pelas suas escolhas.

De forma leve e bem humorada a série fala de violência contra mulher, padrões de beleza, gentrificação, arte de rua, colorismo e a situação política dos Estados Unidos.

4º Os personagens coadjuvantes

Todos os personagens tem um background. Lógico que alguns podem ser mais interessante do que outros, mas tem impacto na vida de Nola de alguma forma.

Seus namorados não são apresentados de forma superficial, todos tem algo para gostar e algo para desgostar. É engraçado perceber que em nenhum momento Nola exige compromisso deles, mas todos decidem ficar nos termos dela. Ao conhecer um pouco da história deles é possível entender porque eles ficam. Menos Opal, o relacionamento que Nola passa a idealizar, mas que não funciona.

Sua melhor amiga Shemekka (Chyna Layne) nos faz olhar para as questão dos ideais de beleza. Jamie também passa por uma situação muito delicada com seu filho com problemas na escola. Papo (Elvis Nolasco) morador de rua e “prefeito do bairro” apresenta mais um ponto de vista sobre ocupação das ruas. É um dos personagens mais carismáticos, junto com a pai de Nola.

5º Brooklyn também é um personagem

A abertura da série é feita com fotos de pessoas pela cidade que mudam a cada episódio, fotos do cotidiano em todas as estações do ano, pessoas normais, vivendo a sua vida. Nola foi criada no Brooklyn, conhece bem o bairro e o usa para expressar a sua arte. As ruas que ela percorre e seus vizinhos fazem parte da história.

O Brooklin da protagonista está passando por diversas transformações, é atual. Se você assistia “Todo mundo odeia o Chris” vai perceber que a “paisagem” mudou, está um pouco mais “clara” e esse é um dos assuntos tratados por Spike Lee: gentrificação.

6º Arte e expressão

As artes, pintura, fotografia e cinema, a artista Tatyana Fazlalizadeh também empresta sua arte para a personagem. A intervenção de Nola nas ruas depois do seu ataque é um paralelo ao trabalho da Tatyana Stop Telling Women to Smile de 2012. A arte é protagonista também da série e apresentada como uma manifestação de insatisfação e ferramenta de reflexão. Atenção para os momentos em que Nola está na sala de aula.

6º Trilha Sonora

Sabe quando toca uma música e você fica se perguntando quem será o artista? A série te responde em seguida com a capa do álbum pra você não se confundir! Não é demais?! E que trilha sonora! Cheia de clássicos do Jazz, Soul Music e R&B. Não vou nem citar aqui pra você ir lá conferir.

7º Estética

A montagem, a fotografia e os figurinos me fizeram cair de amores. O Brooklyn está tão lindo que me fez querer ir morar lá também, graças a fotografia colorida. Os figurinos, são de uma riqueza tremenda, do exagero e sofisticação do Greer, ao clássico e elegante Jamie e o Mars que não sei descrever. Nola é casual e sexy ao mesmo tempo, um destaque para o episódio do vestido.

E na montagem Spike Lee tem liberdade para experimentar: na simetria das imagens, na inserção de textos na tela, a letra pra acompanhar as músicas e quando uma referência é citada ela é mostrada, no uso das câmeras enquadramentos e movimentação.

8º Quebra da quarta parede

Eu particularmente adoro quando os personagens falam comigo, quando olham pra mim. Lee usa esse recurso narrativo na série (recurso utilizado no filme também) com diversos personagens, assim conhecemos um pouco mais sobre eles de um ponto de vista que não é o da Nola e também podemos saber o que eles pensam sobre ela.

9º Um poço de referências

Para além da trilha sonora a série apresenta tantas referências que é bom assistir com um caderninho para anotar tudo. Nola é uma cinéfila e ao longo dos episódios vai citando dentro dos diálogos filmes e diretores. Em um episódio em especial Spike Lee faz um verdadeira homenagem a diversos artistas músicos, artistas plásticos, escritores, personagem negros que fazem parte da história dos Estados Unidos.

10º Identificação

Mulher negra que sou, passei a vida assistindo seriados que de forma alguma me representavam, nem eram pensados para mim, mas eram a única opção. Vi Blossom, Gilmore Girls, Sex and the city, Girls (uma bosta) e por aí vai, séries com problemas de mulheres brancas. Algumas coisas são comuns a todas as mulheres, mas o viés ali representado de forma alguma se preocupava com as especificidades do que é ser uma mulher negra. Claro que essa série não representa todas as mulheres negras, nenhuma vai, mas chega muito mais perto, assim com Insecure ou Chewing Gun. Agora temos opções.

Uma mulher negra protagonista mostrando sua sexualidade sem ser sexualizada ou reduzida a um saco de estereótipos em 2017 ainda pode ser considerado revolucionário, infelizmente. Já que a nossa sociedade é tão racista e machista. Por isso acho essa série tão importante.

Ela quer tudo, acho que deu para perceber.

Aguardamos uma próxima temporada.

Nola Darling quer tudo e eu também!

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.

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