Festival promove Perifa Talks na zona Sul de SP e reúne empreendedores negros e de favelas que ajudam a movimentar 228 bilhões por ano

Perifa Talks

Evento ocorre nos próximos dias 8 e 9 de dezembro, com entrada gratuita e espera 10 mil pessoas na Praça do Campo Limpo.

Feito para ser o #maiorterreirodomundo, o Festival Percurso 2018 – de Jardim a Jardim ocorre nos próximo dia 09 de dezembro na Praça do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo (SP), com entrada gratuita para as mais de 40 diferentes atrações programadas para todo o dia. Também haverá um pré-festival de boas-vindas, o Perifa Talks, no dia anterior, sábado 08 de dezembro, das 10h às 17h30 no Cantinho de Integração de Todas as Artes (CITA), na  Praça do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo.

Dividido por tendas, o festival que é organizado pela Agência Popular Solano Trindade, que neste ano se une ao movimento Jardim a Jardim, através da parceria com o C de Cultura ampliando ainda mais a atuação e a visão integrada de sociedade, premissas que fazem parte do DNA do projeto.

A organização do evento espera cerca de 10 mil pessoas no domingo e oferece uma programação que abrange crianças, jovens, adultos e idosos. A proposta é levar ao público atividades educacionais, de entretenimento, empreendedorismo e de geração de renda.

Segundo o Datafavela, 18 milhões de empreendedores brasileiros pertencem às classes C e D e movimentam 228 bilhões de reais por ano no país. Um dos exemplos é a Feira Preta, criada por Adriana Barbosa, uma das palestrantes do Perifa Talks no Festival Percurso, em 2017 o evento atraiu 100 negociantes, recebeu 25 mil pessoas e vendeu R$ 7 milhões.

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Conforme o Instituto Locomotiva, atualmente, 11,4 milhões de brasileiros vivem em favelas e, conforme mostra o Sebrae, há um aumento de 27 por cento no número de negros à frente de negócios. Um levantamento feito em 63 comunidades de 10 regiões metropolitanas do Brasil mostra também que  4 em cada 10 moradores de favelas desejam empreender. Deste número, 63 por cento acham que o melhor lugar para empreender é a própria favela; 51 por cento do público empreendedor é formado por mulheres; 73 por cento dos que empreendem são negros ou pardos; 29 por cento têm entre 25 e 34 anos; 44 por cento dos lares são chefiados por mulheres.

Um destes empreendimentos é o que realiza do Festival Percurso, a Agência Solano Trindade, que funciona como co-working e também oferece dicas a empreendedores e empréstimos – inclusive com uma moeda própria – a juros de 1 por cento e para moradores da comunidade.

Está também a já mencionada Feira Preta, com palestra da criadora do evento, Adriana Barbosa.

Perifa Talks

No Perifa Talks, a entrada é gratuita, porém com vagas limitadas. O evento recebe 14 convidados, de diferentes localidades, coletivos e ideias inovadoras para a periferia.  O tema fica em “A vida, a obra e o percurso empreendedor de grandes referências”

Entre os convidados estão a empresária Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta, o mestre Aderbal Ashogun, sacerdote do candomblé e  que trabalha com a proteção das culturas de matriz africana, a mãe Beth de Oxum, Ialorixá e percussionista de Recife (PE), Wellington Neri, o Tim, do coletivo Imargem, grupo que propõe um olhar cuidadoso para as margens povoadas da periferia, Elânia Lima, psicóloga e integrante da coletiva Roda Terapêutica das Pretas, Nayra Lays, que integra movimentos culturais do bairro Grajaú e Romária Sampaio, que é assistente social em Parelheiros e atua com comunidades religiosas de matriz africana.

A ideia do encontro é trabalhar a diversidade e o aprendizado a partir da vivência do outro. “Na cultura, como na natureza e seus biomas, a vida depende da diversidade. Se um grupo tem pouca troca com outros, de suas formas de fazer música, cantar, tocar, improvisar, compor e dançar, maior será a chance de sua cultura entrar em decadência, ser pouco valorizada ou até esquecida. A ordem é absorver a diferença para manter-se vivo”, diz Leo Mello, diretor do C de Cultura, parceiro do festival.

Confira alguns dos principais convidados

Adriana Barbosa

Criadora da Feira Preta, maior evento de cultura negra da América Latina que está em sua 17a edição, está entre os negros mais influentes do mundo. Feira Preta é hoje uma plataforma social que vai além do evento anual e dá vazão aos talentos empreendedores com atividades o ano inteiro de formação, incubação e aceleração negócios.

Elânia Lima

Mulher negra, periférica, nascida em Montanha, no Espírito Santo. Elânia é feminista interseccional e trabalha como psicóloga atendendo, majoritariamente, mulheres periféricas. É da coletiva Roda Terapêutica das Pretas, do grupo de Psicólogas Periféricas e pesquisa sobre as potências revolucionárias dos afetos (sem romantizações). Gosta de bell hooks, de viver as pequenezas do dia a dia e se fortalecer nas relações de afeto tecidas na troca de vivências com outras mulheres. Sua apresentação tem como tema “A potência revolucionária dos afetos”.

Nayra Lays

Nascida e criada no Grajaú, no extremo sul de São Paulo, Nayra Lays passou a participar dos movimentos culturais e de saraus ainda adolescente. Cantora, compositora, MC e comunicadora, aos 21 anos faz parte da nova geração de mulheres artistas que estão emergindo das margens, e ocupando outros espaços. No palco do Perifa Talks do Festival Percurso 2018 vai discorrer sobre o tema: “Aprendi a não me culpar por sonhar sem freio”. Nayra já participou do projeto Pulso,  residência artística da RedBull Station, e, por sua passagem na agência-escola de jornalismo Énois, atualmente escreve para o site do Itaú Cultural. Também é integrante do coletivo de hip hop feminino Graja Minas, que vai se apresentar no domingo na Tenda das Yabás às 16 horas.

Mestre Aderbal Ashogun

Baiano, nascido no terreiro do Alaketu, Mestre Aderbal Ashogum é coordenador da rede OMO ARO CIA CULTURAL, que desde 1992 tem como prioridade a manutenção e o resgate do complexo cultural dos povos tradicionais de terreiros. Artista, escritor e professor,

é filho da Iyalorixá Mãe Beata de Iemanjá, uma das mais importantes ativistas no combate à intolerância religiosa e militante dos direitos humanos, meio-ambiente, defesa e preservação da cultura afro-brasileira. Aderbal é sacerdote do Candomblé do terreiro Ilê Omiojuarô, tombado em 2015 como Patrimônio do Estado do Rio de Janeiro pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Sua obra possui conexão direta com questões de culturas que habitam as periferias das sociedades ocidentais e busca reencantar e conectar a ancestralidade de territórios e rituais sagrados. Sua poética, no limite, intenta celebrar a união dos povos em torno de um objetivo comum: a preservação e manutenção da cultura brasileira principalmente dos povos e comunidades de matriz africana, indígena e cigana. Presente no circuito da arte contemporânea, Aderbal Ashogun é um nome importante na travessia entre um meio cujo cânone encontra-se no eixo Estados Unidos-Europa e as tradições de culturas historicamente colocadas à margem das grandes narrativas. Realizou oficinas internacionais de ecologia, cultura e arte afro-brasileira em todo mundo e é um dos coordenadores da Rede Nacional de Cultura Ambiental Afro-Brasileira, formado por mais de 100 entidades além de coordenar, da Casa Caracol de Povos de Terreiro, centro cultural em Paraty (RJ) que promove o intercâmbio sociocultural e econômico entre povos de terreiro, indígenas, camponeses e periféricos.

Tim

Wellington Neri da Silva, o Tim, é artista, filho da cultura Hip Hop, é educador e produtor cultural, desenvolve “pesquisações” nas artes, ecologia, juventudes e processos pedagógicos. Co-fundador do Coletivo Imargem, ganhador do Prêmio Brasil Criativo de 2016, também é diretor do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do adolescente de Interlagos, membro pioneiro da Casa Ecoativa e Coordenador dos Projetos Cartograffiti e Hip Hop é Educação.

Romária Sampaio:

Atua como assistente social em Parelheiros (ZS) no enfrentamento do racismo e no avanço de políticas públicas voltadas para as periferias. Está à frente de discussões junto às comunidades religiosas de matriz africana. Interessada no resgate ancestral do uso de plantas medicinais, é pós graduanda em Fitoterapia Brasileira e visa a preservação e disseminação do uso popular da medicina na periferia.

Franz Thomas:

Educador social na Associação Bem Comum e co-fundador da iniciativa “Navegando nas Artes”, que promove vivências náuticas em barcos à vela com foco no estímulo da reflexão, sensibilização e mobilização das comunidades que vivem às margens da Represa Billings, na Zona Sul. A atividade tem como objetivo ressaltar a valorização da água como bem natural finito do meio ambiente, da mobilidade e da ocupação dos espaços públicos.

Henrique Castan

Empresário e empreendedor social da rede Nutriens, de comercialização de alimentos orgânicos e saudáveis. Henrique acredita que por meio da oferta e consumo de alimentos que reconectam o ser humano à força da natureza, aproximamos pessoas e ideias, ideais e realizações – criando, assim, uma espiral virtuosa que amplia a consciência humana e gera resultados e riquezas em diferentes dimensões.

Mãe Beth de Oxum

De Olinda (PE), a Ialorixá do Terreiro Ilê Axé Oxum Karê também é percussionista da Banda Cultural Coco de Umbigada (que vai se apresentar no palco Jardim a Jardim do Festival Percurso, no domingo, às 20h). Mãe Beth de Oxum fundou do Afoxé Filhos de Oxum, um dos primeiros a incluir mulheres na percussão e coordena diversos projetos em sua cidade, como o Núcleo de Formação de Agentes de Cultura da Juventude Negra, que trabalha na formação da juventude negra, e o Ponto de Cultura Coco de Umbiagada. Ela ainda Integra a Comissão Nacional dos Pontos de Cultura – GT Matriz Africana e é conselheira do Colegiado de Cultura Afro-Brasileira do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). Durante 15 anos, foi presidente do Afoxé Alafin Oyó, atuando na luta contra o preconceito religioso. Criou no bairro de Guadalupe o Cineclube Macaíba, direcionado às culturas de matriz africana, e a Rádio Amnésia. Transformou sua casa, onde se realizavam rodas de coco de umbigada, no ponto de cultura Casa de Oxum. Em 2015 ganhou recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC), dada a personalidades como forma de reconhecer suas contribuições à cultura do Brasil.

Jardim a Jardim

A edição deste ano do festival foi pensada para ser o #maiorterreirodomundo e, na prática, fomentar a união que passa entre os povos através de diferentes vertentes musicais, culturais ancestrais e a economia, trazendo a ‘re-união’ do que há de mais bonito no Brasil: o conceito de agrupamento, deaquilombamento, transformando a Praça do Campo Limpo em um chão abençoado por mestres de religiões de matriz africana e indígena. Nessa confraternização, o bastão dos griôs será passado pelas mãos da nova geração.

O conceito de “Jardim a Jardim” nasce da metáfora sobre a necessidade de encontro e troca entre as pessoas. Independente do bairro onde moram e da realidade de vida de cada um, a arte será sempre capaz de aproximar todos, afinal, sempre há o que se aprender e ensinar, de ambos os lados.

Sobre o festival

O 5º Festival Percurso Jardim a Jardim, conta com a realização da Agência Popular Solano Trindade, C de Cultura, PROMAC, Secretaria Municipal de Cultura, Prefeitura de São Paulo, Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, por meio do Programa de Ação Cultural ICMS e Governo do Estado de São Paulo.”

A programação será dividida em tendas, como Tenda dos Povos, Tenda das Yabás, Feira Paulo Singer, Alimentando Pontes, entre outros.

Serviço – Mais informações sobre o festival podem ser obtidas no link: https://www.facebook.com/FestivalPercurso/

Sou formada em Artes Visuais, apaixonada por arte, música, livros e HQs. Editora nos blogs Las Pretas e Sopa Alternativa.