Get Out, se você ainda não assistiu, Corra!

Get Out, se você ainda não assistiu, Corra!

Get Out entrou na lista dos indicados ao Oscar desse ano, com quatro indicações, melhor filme, melhor diretor para Jordan Peele, melhor ator para Daniel Kaluuya e melhor roteiro original. As indicação nos lembraram que temos que falar sobre esse filme.
Esse texto pode ter um pouquinho de spoilers.

Que história é essa?

Corra! (Get Out) filme de terror, foi lançado em janeiro de 2017, tem a direção de Jordan Peele, o como protagonista o ator Daniel Kaluuya, é Chris Washington um fotógrafo que namora Rose Armitage (Allison Williams). Chris é convidado para passar uma final de semana na casa dos pais da namorada e conhecer seus pais, Missy e Dean Armitage (Catherine Keener e Bradley Whitford). Antes viagem ele já demonstra um pouco de preocupação ao perguntar para a namorada se ela contou aos seus pais que ele é negro.

Ao chegar na casa da família ele é muito bem recebido, mas aos poucos começa a passar por situações desconfortáveis e perturbadoras dentro da casa, quando começa a desconfiar do comportamento estranho dos outros poucos negros que encontra e que são todos empregados dos Armitage.

A mãe da Rose, Missy é uma psicoterapeuta que trabalha com hipnose e seu pai Dean é médico. Chris percebe tarde demais que está preso em uma armadilha, que foi vítima de um leilão dentro de uma festa com os outros moradores de cidade. Sequestrado descobre que será vítima de um procedimento onde seu corpo já não lhe pertence mais, e passa a ser controlado por uma pessoa branca, o vencedor do leilão.

Através da hipnose a consciência do Chris fica isolada dentro da sua mente em um espaço chamado “lugar submerso”, onde ele pode ver, mas não tem controle das suas ações e não consegue falar, numa espécie de transplante cerebral ele não tem mais direito sobre seu corpo. Assim como aconteceu como todos os outros negros que conheceu durante a viagem. A justificativa dentro do enredo é de que negros tem tanto talento, beleza, seus corpos são mais fortes, mas um branco dentro desse corpo seria muito melhor, uma perfeita combinação.

Como o racismo acontece?

O filme mostra diversas formas de como o racismo é exercido, não de maneira agressiva, as pessoas no filme não acreditam que são racistas. Mesmo sendo um recorte da experiência norte americana, muitos desses exemplos, talvez todos, podem ser percebidos em situações semelhantes no Brasil também. O filme fala dessa era pós-racial depois que Barack Obama foi eleito por duas vezes um presidente nos Estados Unidos o racismo foi superado, ideia muito disseminada pelos eleitores liberais.

Aqui no Brasil existe o conceito de “Democracia Racial”, expressão usada para definir as relações raciais no país, crença difundida pelo sociólogo Gilberto Freyre na de  e outros estudiosos (1930) que acreditavam que os brasileiros escaparam do racismo pois não nos vemos através da lente da raça, devido forma como se davam as relações entre senhores de engenhos e negros escravizados, e fatores como a miscigenação a discriminação racial torna-se irrelevante, essa teoria passa a ser motivo de orgulho. Esses conceitos não são contemporâneos, mas têm semelhanças.

A obra ainda fala sobre objetificação dos corpos negros, do homem negro como um objeto sexual, como uma máquina de força, sempre ligado a trabalhos físicos, esportes e lutas, da sua animalização. E Chris passa por diversas situações antes se perceber sequestrado, em que o racismo é apontado sutilmente, comentários que a princípio soam como elogio, mas não são. São reforços de estereótipos que desqualificam o pensamento, a linguagem e os valores das pessoas negras, desumanização.

Ou seja

É um filme de terror, que sim, tem alguns exageros e através deles vemos a nossa realidade escancarada. Eu, em alguns momentos fiquei bastante incomodada, pois estar em ambientes onde é maioria é branca é muito comum quando começamos a ascender socialmente. E os comentários sem noção que ouvimos são esses mesmo.  É um filme muito divertido que ao mesmo tempo alfineta a branquitude que acha que já fez o suficiente. Negros vivem nesse filme de terror todos os dias.

O final, eu considero brilhante, por gerar mais uma reflexão sobre sempre esperarmos o pior e como estamos condicionados pelo sistema, mas vou deixar no ar para quem ainda não viu. O diretor encontrou uma outra forma de falar de um tema que sempre é tratado através do sofrimento e da violência contra os negros, ele mudou o gênero e fez com que o nosso olhar fosse voltado para os brancos.

E as indicações ao Oscar são importantes por fazerem com que esse filme chegue ainda mais longe e para que o talento de Peele e Daniel seja reconhecido. Mas são só a cereja do bolo, o filme é bom mesmo, se espalhou muito pelas críticas das pessoas que foram indicando umas as outras e nem teve um grande orçamento. Seu papel ele cumpriu.

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.