Intercâmbio: a experiência de uma mulher negra

Intercâmbio: a experiência de uma mulher negra

São quase dez meses fora do Brasil. E renovei meu visto para mais uma temporada que vai me levar ainda não sei muito bem pra onde. Agora decidi escrever as minhas impressões, “praticamente” adaptada a rotina desse novo país, a Irlanda.

De viajar eu sempre gostei e intercâmbio é sonho desde os meus quinze anos quando colecionava revistas Capricho e li as matérias sobre o assunto. Eu me imaginava fazendo seis meses de high school nos Estados Unidos igual nos filmes. Sou de uma família que sempre me deu tudo, mas uma família simples, nunca aconteceu. Aí esqueci, até que que lembrei no final da faculdade , quando descobri que podia viajar para estudar inglês e trabalhar, mas como ainda continuava sem condições, não deu, esqueci outra vez.

Então, fui demitida  anos depois e fiz o que muita gente faz, torrei minha rescisão e FGTS pra vir pra cá. Em Dublin na Irlanda, a ilha mais cheia de brasileiros, terra de pouco sol, muito frio, chuva e cerveja. Ainda estou bem longe da riqueza, mas organizada financeiramente pelo menos, isso ajuda.

Vim naquele esquema que julguei mais seguro e simples, escolhi uma agência no Brasil que me auxiliou nos trâmites mais burocráticos, escolhi uma escola de inglês e foi isso. Deu certo.

Atualmente estudo inglês de manhã e a tarde trabalho como au pair para uma família de irlandeses. São três crianças muitos gostosas e inteligentes. Escolhi esse trabalho porque já tinha experiência com crianças e queria economizar com acomodação que é muito caro aqui, entretanto, morando com a família não tenho esse custo.

Outro bônus é falar inglês o tempo todo até o cérebro ficar exausto, além disso, é interessante conhecer outro modo de vida, que de muitas formas não é assim tão diferente, mas de outras é sim. O ritmo da cidade é outro, tendo como referência a cidade de São Paulo que tem 12 milhões de habitantes mais que o dobro do que tem aqui no país inteiro, sinto que tenho mais espaço. Dublin é segura e silenciosa, os irlandeses super de boa, é uma vida pacata.

Adoro estudar inglês, desde a primeira aula. Consigo ver a minha evolução e me fez ter vontade de aprender outros idiomas depois. Mas  parte ruim é a saudade da família e dos amigos. Partir doeu, e apesar da internet que ajuda muito, não supre toda a falta que eles fazem. Além disso aqui a gente tem que ser um pouco cascudo, as pessoas estão indo e vindo, é difícil manter amizades e criar conexões. Além de ser cansativo recomeçar o tempo todo, tem que aprender a lidar com a solidão.

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Ser negra aqui não é uma questão que me preocupa tanto agora, mas antes de vir fiz uma pesquisa pra tentar saber como era a relação dos países que aceitam intercambistas com o racismo isso foi importante na minha decisão.  Não achei muita coisa, tem muito canal de pessoas vivendo na Irlanda no Youtube mas os brancos falam muito pouco e vagamente sobre isso e eles são a maior parte, encontrei o canal de uma mulher negra e ela não fala sobre isso.

A irlanda é uma país branco, estamos longe de ser a maioria, porém é comum ver pessoas negras na rua, misturados com estrangeiros de todas as partes, mas não é uma comunidade grande ou unida, pesquisei e não consegui encontrar sobre o assunto. Nas escolas de inglês não são muitos alunos negros, dentro do mix de nacionalidades há brasileiros na maioria brancos, coreanos, mexicanos, italianos, franceses e espanhóis, somos poucos. Fica clara a dificuldade do nosso acesso a esse tipo de oportunidade, além disso é possível observar que quando temos acesso ele é tardio, enquanto os europeus vem estudar inglês quando terminam a escola, um estágio antes da faculdade, ou como um curso de férias, pro intercambista latino americano, as motivações são outras e a faixa etária é mais alta isso para negros e brancos.

Dublin é uma cidade que recebe muita gente e isso me deu mais segurança de que os riscos aqui fossem menores de sofrer preconceito, ouvi relatos de amigos que sofreram com racismo em Portugal e na Espanha por exemplo. Aqui definitivamente não é igual ao Brasil onde o racismo é também estrutural, nenhum segurança vai te perseguir dentro de uma loja e não afeta as suas chances de conseguir um emprego. Acredito que o fato de não ser um país com passado escravocrata faz diferença na mentalidade do irlandeses também, ao contrario de países que tem histórico de colonizadores. Mas também sei que sim pode acontecer e nas cidades menores talvez a mentalidade seja mais conservadora e o racismo tenha uma presença mais forte.

Isso muda a gente e apresenta um perspectiva do mundo que de outra forma eu não teria. Mas não é fácil, eu percebi o quão brasileira eu sou, acho que isso acontece com todo expatriado, a gente não tem  noção de como a nossa cultura está entranhada na gente e se pega sentindo falta de coisas que a gente nunca iria imaginar. Por outro lado é a oportunidade também de se abrir pro mundo e isso não tem preço.

No geral tem sido um experiência muito boa, sem muitos perrengues, cheia de aprendizados. Não me arrependo porque meu sonho de morar fora do Brasil sempre foi muito grande, viver isso é uma realização gigantesca que custou muito mais que dinheiro. Quem diria que a menina preta da Cidade Tiradentes iria conseguir? Queria poder voltar nos meus quinze anos e dizer pra mim mesma que sim, porque eu não achei que fosse rolar não.

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.