Nostalgia: Um maluco no pedaço

Um maluco no pedaço

Crescer nos anos 2000 não foi fácil, e antes era pior ainda. Mas aos poucos séries norte americanas chegaram ao Brasil e nos traziam algumas referências negras que foram importantes e de relevância na cultura pop. Os protagonistas e coadjuvantes marcaram mais de uma geração e hoje são lembrados pelo seu carisma e pela nostalgia.

Vamos voltar a década de 1990 e falar de The Fresh Prince of Bel Air, conhecida no Brasil como Um maluco no pedaço, a série abriu as portas de Hollywood para o Will Smith e trouxe para dentro de nossas casas uma sitcom engraçada, musical e crítica ao mesmo tempo. Até hoje seus personagens são referências nas minhas piadas. A série durou 6 temporadas de 1990 até 1996, foi produzida pela rede NBC, mas como a maioria, acompanhei tudo pelo SBT, onde começou a passar no ano 2000 sem ordem nenhuma, naquela época não sabíamos o que era uma temporada.

Um maluco no pedaço
Um maluco no pedaço

Pra quem não sabe a série é sobre o vida do William Smith um garoto da Filadélfia que se envolve em problemas com o pessoal do seu bairro, por isso é mandado pela sua mãe Viola para a casa de sua irmã Vivian (Janet Hubert-Whitten), uma professora, e Phillip Banks (James Avery), seu cunhado e advogado muito bem sucedido.

Eles vivem em Bel-Air, um bairro de classe alta em Los Angeles e tem três filhos Hillary (Karyn Parsons), Carlton (Alfonso Ribeiro) e Ashley (Tatyana Ali), além do mordomo inglês Geoffrey (Joseph Marcell). Através do humor vemos uma família negra muito bem estabelecida dentro de um círculo social predominantemente branco e como eles lidam com isso. Vemos também como Will um garoto no início da série, lida com esse realidade pra ele tão diferente. Morremos de rir com seu comportamento inadequado.

Um maluco no pedaço
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Ao longo dos episódios são citadas muitos personagens importantes para a história do movimento negro, tio Phill fala que participou marcha de Selma. Will cita Rosa Parks, que ficou conhecida por não ceder o lugar em um ônibus para uma homem branco, Malcon X e Martin Luther King são sempre lembrados. Lembro do dia que Vivian deixa essa lição para o Will:

“Se você não conhecer toda a história, estará banalizando toda a luta.”

 

É interessante perceber que já no início da primeira temporada a série traz questões que são contemporâneas. No episódio 6, um dos mais marcantes pra mim, chamado Identidade Trocada, Will e Carlton são presos por estarem perdidos e dirigindo um carro a 20 km por hora, o racismo policial nos é apresentado.

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Um apontamento importante de notar no desenvolvimento desse episódio é que Will de imediato entende o que está acontecendo por ter vivido em um bairro pobre e saber como o sistema funciona, enquanto Carlton alheio a essa realidade não entende nada o que está acontecendo, esse episódio mostra que nem mesmo ser de uma família rica te salva da cor da sua pele.

Na categoria das polêmicas está a saída da atriz Janet Hubert-Whitten, que interpretava a tia Vivian, dizem que nos bastidores havia uma briga de egos entre ela e Will Smith, mas felizmente não vemos isso nos episódios. Quando ela engravidou em 1993, apesar dos roteiristas colocarem isso no roteiro ao final da temporada, ela foi demitida e substituída pela Daphne Maxwell Reid. A energia da série muda, mas ainda assim vale a pena assistir.

Humor físico e também cheio de ironia, se atentem aos figurinos.

 

Um maluco no pedaço
Um maluco no pedaço

As participações especiais são muito sensacionais, tem Oprah Winfrey, Vanessa Williams, Whoopi Goldberg, e inusitadas como Pat Morita e B.B. King, a lista é tão grande até o Trump passou por lá… Inclusive ao final do seriado quem compra a casa dos Banks é o saudoso Senhor Willis, junto com o Arnold.

Minhas participações favoritas são as da Queen Latifah e da Tisha Campbell-Martin, a atriz que faz a Jay em Eu a Patroa e as Crianças. Isso sem contar com os personagens do elenco principal que eram hilários, o Jazz melhor amigo do Will que voava pela porta, a mãe do Will, os pais do tio Phill, dois fofos, enfim. O bom de ver milhões de vezes no SBT é que gruda tudo na memória afetiva.

Um maluco no pedaço
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Outra curiosidade é que Will conheceu a sua esposa Jada Pinkett nos bastidores da série enquanto fazia um teste para uma participação, ela não passou no teste e nunca apareceu no seriado. 

Recomendo reassistir a série e prestar atenção nas coisas que passavam batidas e vão além do humor. E pensar em como depois de 20 anos, ainda caminhamos muito pouco em algumas questões raciais. Mas pensar também na importância dessa série na construção do imaginário de uma família negra, bem distante de estereótipos racistas de pobreza e violência. Um família negra de sucesso.

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.