Resenha: Americanah

Resenha: Americanah

Americanah, lançado em 2013 foi meu primeiro romance da Chimamanda Ngozi Adichie. Um livro longo, com mais de quinhentas páginas que você lê rapidinho, ou talvez deva ler devagar porque não quer que acabe. Ele foi vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos melhores livros do ano pela NYTimes Book Review.  

“Então ali estava ela, num dia repleto da opulência do verão prestes a trançar o cabelo para a viagem de volta. O calor pegajoso se agarrava a sua pele.”

 

Depois de 13 anos vivendo nos Estados Unidos, Ifemelu decide que é hora de voltar para a Nigéria. É assim que o livro começa, acompanhamos suas lembranças enquanto ela trança os cabelos no salão antes da viagem. Voltamos para a década de 1990, tempo do governo militar, e se você já leu outros livros da autora vai perceber que esse é um tema comum em todos eles, uma fase que tenho a impressão foi muito forte na vida de Chimamanda. É nesse período que Ifemelu e Obinze se conhecem e se apaixonam, Ifemelu é uma garota jovem, crítica e decidida a investir na sua educação. Não vendo chances pelas questões políticas e greves recorrentes na universidade, muda-se da Nigéria para os Estados Unidos em busca de  melhores oportunidades. Enquanto Obinze seu namorado fica no país e tenta de outras formas se desenvolver até poder viajar para se encontrar com ela, mas não é nada fácil esse reencontro acontecer. A livro nos apresenta a trajetória desses dois personagens que se separam na juventude e seguem caminhos completamente distintos.

“Todas as manhãs a mãe de Ifemelu rezava pelo General. Ela dizia: “Meu Pai, ordeno que abençoe o mentor de Uju. Que os inimigos dele nunca triunfem!”. Ou dizia: “Cobrimos o mentor de Uju com o sangue precioso de Jesus!”. E Ifemelu murmurava algo sem sentido em vez de dizem amém.”

 

Leia também:
Conheça a escritora Chimamanda Ngozi Adichie
Resenha: No Seu Pescoço
Resenha: Hibisco Roxo

É interessante acompanhar Ifemelu e através do seu olhar ver os Estados Unidos de uma forma diferente do convencional, ela aponta diversos problemas enquanto descobre o que é ser negra em um país de brancos, ela descobre o que é ser racializada, uma noção que ela não tinha em seu país. Também é muito forte a questão da identidade para a protagonista, em diversos momentos essa o tema se faz está presente, um processo de auto descoberta e de construção do amor próprio em um ambiente por vezes muito hostil. Inclusive a protagonista cria um blog e passa a escrever sobre a sua realidade no Estados Unidos. Ela fala sobre a imigração e aprofunda o tema, o racismo institucional, sobre aceitação capilar, relacionamento interracial e gênero.

“… e Ifemelu olhou com admiração para uma delas, uma mulher com uma saia muito curta. Ela não dava importância a pernas esbeltas exibidas numa mini saia – era fácil e seguro, afinal, mostrar pernas que tinham a aprovação do mundo -, mas o  ato da mulher gorda tinha aquela convicção silenciosa que alguém divide apenas consigo mesmo, uma noção do que é certo que os outros podem ver.”

 

Enquanto isso Obinze nos apresenta um outro lado da moeda, ele também sai do país e sua trajetória é completamente diferente do esperado, mesmo não vivendo mais na Nigéria conseguimos entender como o sistema funciona, aprendemos mais um pouco sobre a cultura da Nigéria e mais alguns aspectos dos desafios da imigração.

Não é apenas uma história de amor, acredito que ela é apenas o fio condutor que permeia a vida de Ifemelu e Obinze, e nos guia para coisas muito profundas na vida de ambos os personagens, com extrema sutiliza a autora consegue nos apresentar. O que eu mais gosto nesse livro é do blog, através dele eu refleti e me identifiquei com a protagonista, são as palavras da Chimamanda através de Ifemelu que aproximam, e mostram uma mulher real, com defeitos, comportamentos que podem ser criticados e que justamente por isso a tornam mais real, interessante e rica. É um livro singelo e repleto de pequenos detalhes que se destacam, ele é leve, não é trágico, mas também não está em busca do final feliz. É sobre o percurso, toda a trajetória é mais importante que o final.

Vai virar minisérie!

Uma ótima notícia é que os direitos do livro foram comprados pela atriz Lupita Nyong’o, já há alguns anos. E finalmente o projeto está saindo da papel, junto com a atriz Danai Gurira as duas trabalharão juntas novamente, não apenas na frente, mas atrás das câmeras também.

O projeto antes era um filme para o cinema, porém agora é uma mini série para a televisão. Lupita interpretará a protagonista Ifemelu e Danai assina o roteiro. Não é demais?!! Agora é só esperar ansiosamente!

 

 

 

Se interessou pelo livro?


Americanah
Autora: Chimamanda Ngozie Adichie
Editora: Companhia das Letras

Compre aqui

Compre pelo link acima e ajude o Las Pretas a continuar divulgando a Cultura Pop Preta e o trabalho de artistas negros. Agradecemos a sua colaboração!

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.