Samba paulista de Geraldo Filme ganha álbum duplo lançado pelo Selo Sesc e show no Sesc Belenzinho

Intitulado ‘Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme’, projeto conta com 20 releituras nas vozes de Ellen Oléria, Fabiana Cozza, Leci Brandão, Paula Lima e mais.

Geraldo Filme de Souza nasceu em 1927, na capital paulista, em um período em que o Carnaval era reflexo das festividades europeias. A figura negra era marginalizada e tampouco comum na imersão de marchinhas. Foi então, aos dez anos, que compôs o primeiro sucesso: Eu vou mostrar. Poético e promissor, o jovem criou a canção para provar ao pai, Sebastião, que existia samba de verdade na terra da garoa. Apesar da pouca idade, a crítica social já era sentida na letra: “Somos paulistas e sambamos pra cachorro. Pra ser sambista não precisa ser do morro”.

Parte respeitável da memória cultural de São Paulo, Seu GeraldoCorvãoNegrinho das Marmitas, Geraldão da Barra Funda ou apenas Tio Gê, dividia-se entre o extinto Largo da Banana, na região da Barra Funda, local considerado o berço do samba paulista, com Pirapora de Bom Jesus. Foi por meio de rodas de tiririca (jogo de pernadas ao som do samba paulista com batucadas em latas de engraxate), samba de bumbo, choro, samba rural e valorização de manifestações artísticas negras, que o compositor fez história e mantém a essência dele viva.

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Foi no palco do Sesc que o idealizador e diretor artístico do projeto, Fernando Cardoso, teve a ideia de resgatar o samba paulista de Geraldo Filme. “Tio Gê é um sonho que nasceu de um encontro inesperado e um verdadeiro encantamento: quando a cantora Fabiana Cozza subiu ao palco do teatro do Sesc Santana e cantou alguns sambas de Geraldo Filme. Posso dizer que o que senti foi amor à primeira ‘ouvida’”, relembra. Distribuído pelo Selo Sesc, o álbum duplo Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme, chega às plataformas digitais em 28 de fevereiro. A versão física poderá adquirida, nos dias 13 e 14 de março, durante o show de lançamento do disco, no teatro do Sesc Belenzinho.

O disco, o qual dá voz ao samba como resistência, traz 20 composições interpretadas por cantoras negras de diferentes gerações. São elas: Alaíde Costa, Amanda Maria, Áurea Martins, Clarianas (Naruna Costa, Martinha Soares e Naloana Lima), Cleide Queiroz, Ellen Oléria, Eliana Pittman, Fabiana Cozza, Graça Braga, Graça Cunha, Lady Zu, Leci Brandão, Luciah Helena, Maria Alcina, Paula Lima, Rosa Marya Colin, Sandra de Sá, Teresa Cristina, Virgínia Rosa e Xênia França. Somam-se a elas textos do escritor Léo Lama sobre a vida de Tio Gê, narrados pelos atores Aílton Graça, João Acaiabe e Sidney Santiago Kuanza.

Habituada a celebrar o repertório do cancioneiro paulista em shows, Maria Alcina comemora em dose dupla o álbum. “Estou duplamente feliz, porque gravei ‘Baiano Capoeira’, um samba de breque, originalmente cantado por Germano Matias, de quem sou fã. O arranjo de minha versão me deu a oportunidade de homenagear Geraldo Filme e o Germano, que é o mestre do samba sincopado, quebrado. Amei”. Já à Fabiana Cozza, participante de outros projetos sobre Geraldão, cantar e contar a história dele é algo essencial para conhecer São Paulo e o samba. “Ele é um compositor o qual precisa sempre ser visitado, ser relembrado. É um sambista que traz na bagagem poética dele o cenário do samba do interior de São Paulo”.

Nas palavras do Diretor Regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, ouvir Geraldo Filme pelo Selo Sesc é transportar-se para o tempo do samba batido no latão ecoado pelas ruas da Pauliceia. “São cenários vivamente construídos onde enxerga-se o drama dos negros, diplomados apenas na escola de samba, eternamente oprimidos em suas manifestações culturais, como o jogo de tiririca e o batuque de Pirapora do Bom Jesus. Um combate ao samba perseguido pela polícia; o da negritude, desvalorizado no protagonismo; e o da memória da cidade de São Paulo, esquecida na acelerada urbanização”.

Seu Geraldo cuidou do samba, do Carnaval e da cultura negra. Em Reencarnação, uma das músicas do primeiro LP dele, intitulado Geraldo Filme, de 1980, o intérprete entoou com precisão: “Quero ser sambista ao renascer de novo pra cantar a alegria e desventura de meu povo”. Completados 25 anos da partida do artista, o samba e o espírito de resistência seguem vivos com a obra Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme’.

Sobre Geraldo Filme
Nascido em 1927, Geraldo Filme de Souza passou a infância no bairro da Barra Funda, o que lhe rendeu o apelido de Geraldão da Barra Funda. O menino entregava as marmitas feitas pela mãe, Augusta, que era dona de pensão. Os pais eram filhos da última geração do sistema escravista e gostavam de música. Seu Sebastião, tocava violino e dona Augusta era uma das organizadoras da romaria nas festas do Bom Jesus de Pirapora — onde o batuque de Pirapora acontecia. Defensor da cultura caipira e dos cantos negros de trabalho escravo, Tio Gê, forma como era chamado pelas crianças, era contra a apropriação cultural e defendia o espaço sem preconceitos étnicos e raciais. Porém, tocava em porões para fugir da represália policial. Sambador, compositor e versador, Geraldo era respeitado por todas as escolas do Carnaval paulista, principalmente, a Unidos do Peruche e a Vai-Vai. Seu único disco solo foi lançado em 1980, intitulado Geraldo Filme. Antes, em 1974, o dramaturgo Plínio Marcos deixa clara a admiração pelo sambista e pelo gênero, ao gravar Nas Quebradas do Mundaréu, reunindo Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde. Em 1982, gravou com Tia Doca da Portela e Clementina de Jesus um dos grandes álbuns da música popular, O Cantos dos Escravos. Geraldo Filme morreu em 1995, em São Paulo, em decorrência de complicações de diabetes e pneumonia.

Selo Sesc
Criado há 16 anos, o Selo Sesc tem o objetivo de registrar o que de melhor é produzido na área cultural. Este ano foi lançado no mercado digital os álbuns: Sessões Selo Sesc #4: Rashid e Sessões Selo Sesc #5: Bixiga 70. Além do CD-livro São Paulo: paisagens sonoras (1830-1880) da pesquisadora, cantora, musicóloga e mezzo-soprano Anna Maria Kieffer; e os CDs Duo + Dois (Fernando Melo, Luiz Bueno, Carlos Malta e Robertinho Silva), Construtores de Sons (Marco Scarassatti e Livio Tragtenberg), Universo (grupo Rumo), Garoto (Paulo Bellinati), o DVD Exército dos Metais, da série O Som da OrquestraO Romantismo de Henrique Oswald (José Eduardo Martins e Paul Klinck), Throwback To The Future (Brookzill!), Dança do Tempo (Teco Cardoso, Swami Jr. e BB Kramer), Espelho (Cristovão Bastos e Maury Buchala), Eduardo Gudin e Léla SimõesRecuerdos (Tetê Espíndola, Alzira E e Ney Matogrosso), Música Para Cordas (André Mehmari) e Estradar (Verlucia Nogueira e Tiago Fusco), Tia Amélia Para Sempre (Hercules Gomes), Gbó (Sapopemba), Acorda Amor (Letrux, Liniker, Luedji Luna, Maria Gadú e Xênia França) e Copacabana – um mergulho nos amores fracassados (Zuza Homem de Mello).

Selo Sesc lança Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme
Desde 28/02 nas plataformas musicais de streaming

Show de lançamento do álbum Tio Gê – O Samba Paulista de Geraldo Filme
Sesc Belenzinho
Dia 13/03/2020, sexta, às 21 horas

Participações de: Alaíde Costa, Amanda Maria, Ellen Oléria, Graça Cunha e a atriz Cleide Queiroz

Dia 14/03/2020, sábado, às 21 horas
Participações de: Áurea Martins, Fabiana Cozza, Luciah Helena, Virgínia Rosa e a atriz Cleide Queiroz

Local: Sesc Belenzinho (Teatro)
Endereço: R. Padre Adelino, 1.000, Belenzinho, São Paulo/SP – CEP: 03303-000
Duração: 90 minutos
Capacidade: 364 lugares
Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante); R$ 9 (Credencial Plena do Sesc – trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes).
Ingressos à venda no portal sescsp.org.br  e nas bilheterias das unidades do Sesc SP
Classificação: 12 anos

* Crédito: Rene de Paula