A Sapiência do Rincon, a.k.a. Manicongo

A Sapiência do Rincon, a.k.a. Manicongo

Rincon Sapiência é Danilo Albert Ambrosio e você pode chama-lo de Manicongo também, nome que veio das sua busca pela ancestralidade e que o levou ao Congo na África onde os reis do passado eram chamados de Mani. Já Rincon, é apelido da adolescência época em que jogava futebol e o pessoal da zoeria no seu bairro dizia que ele era parecido com o jogador colombiano.

MC, compositor, produtor e vegetariano, pra quem interessa, Rincon é responsável por todos os processos de desenvolvimento dos seus  trabalhos. Veio da Cohab 1 em Itaquera, zona leste de São Paulo, onde começou a fazer música tendo com referência o rapper Xis, seu vizinho da Cohab 2. Tinha mais ou menos uns 15 anos, havia largado o futebol, inclusive jogou na Portuguesa como volante, mas outros interesses chamaram mais sua atenção. Sua primeira banda chamava-se Munições da 38, nos anos 2000.

A visibilidade veio com o rap Elegância em 2009. Depois ele gravou mais alguns singles e fez parcerias com o Projota e Rashid, também participou do programa Manos e Minas. Em 2010 foi indicado na categoria Rap na premiação do finado Vídeo Music Brasil da MTV.

“Preto e formado, é sempre perigoso”

Um  longo caminho até que, em 2017 lançou seu primeiro álbum Galanga Livre.

Rincon diz que o processo de construção do álbum levou três anos, período em que ele fez muita pesquisa, viajou para continente africano e conheceu países que o fizeram perceber o que o Brasil tem da cultura africana, além conhecer novos sonoridades.

Ele misturou a batida dos tambores de Dacar, rock nigeriano, ciranda, capoeria, e até carimbó como referência indígena, além do funk carioca.

Galanga Livre é considerando um dos melhores álbuns do ano na cena nacional. Antes do seu lançamento saiu o clipe de Ponta de Lança, uma prévia do que podíamos esperar. Além do ritmo contagiante, assim com Elegância, Rincon gravou o clipe lá na Cohab 1, com uma câmera antiga que traz essa textura envelhecida para a imagem, para lembrar a época em que o MC ocupava lugar de destaque no rap brasileiro. Muito além da estética do vídeo a letra é um punch line atrás do outro, ácida, crítica e politizada. O que dizer da forma como ele brinca com as palavras nas linhas soltas e sem refrão em trechos como esse aqui?:

“Batemos tambores, eles panela

Roubamos a cena, não tem canivete

As patty derrete, que nem muçarela

Quente que nem a chapinha no crespo, não

Crespos tão se armando

Faço questão de botar no meu texto

Que pretas e pretos estão se amando”

 

Ainda em 2017 dia 26 de dezembro, Manicongo lançou mais um vídeo com seu novo single Afro Rep cheio de provocações e críticas fazendo coisas de Cleiton, citando um certo ‘jornalista’ racista, falando do nosso ‘presidente’, mostrando seu engajamento e consciência política. A música celebra a cultura afro do Brasil e da África, ainda brincando com diversos estilos musicais, com participações de um pessoal da pesada, num plano sequência lindíssimo.  

“Temos coisas para exibir

Quando dizem que é mimimi

É assim que nascem os meus inimi

Classe média, não pega nada

Quando toma enquadro

Quando pega baga

Detergente vira detenção

Quando é negão, tipo Rafa Braga”

2017 foi ano do Rincon e pelo visto 2018 será também.

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.

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