Ser negra e viajar sozinha

Viajar - Mulher negra

Viajar sozinho é uma questão. Uma mulher viajando sozinha duas questões. Uma mulher negra viajando sozinha, minha nossa, são três questões!

Minha primeira viagem sozinha foi pra Maresias, no litoral de São Paulo. Escolhi um lugar perto, em que já havia ido com amigas, eu tinha 25 anos. Fiquei no mesmo hostel inclusive, tudo da forma mais segura possível. Pensei comigo: ‘se eu atravesso a cidade todo dia sozinha, por que não posso ia à praia?’ E fui, e foi libertador.

Fiz mais algumas viagens curtas e aí arrisquei mesmo. Havia prometido a mim mesma que não iria passar mais um ano novo na quebrada vendo Netflix. Comprei passagens pra Santiago do Chile, dez dias, para passar o Natal e o Ano Novo, um baita impulso. No momento que confirmei a compra me arrependi, mas não tinha mais volta, reservei o hostel em seguida e não pensei mais no assunto por cinco meses até um dia antes da viagem, quando tive que arrumar as malas. Pensei comigo outra vez: ‘mesmo que eu passasse os dez dias dentro do quarto tudo bem, eu tive coragem de ir’. Fiz meu primeiro amigo já no avião, e não passei nenhum dia trancada no quarto.

Ouvi muitos comentários, sobre como eu fui corajosa, se não estava com medo. E as outras mulheres sempre dizem ‘ah eu não teria coragem, mas acho legal quem tem’. Durante a viagem também, a surpresa sempre veio de pessoas que estavam viajando acompanhadas, principalmente mulheres. Eu ficava com a impressão de que elas (porque a maioria dos comentários era de outras mulheres), estavam com pena de mim, com quem eu ia conversar? Como ia me divertir sozinha? Não acho que a tenho que justificar porque viajo sozinha, mas o principal motivo é:

Porque eu quero viajar!

E não preciso necessariamente estar acompanhada para isso. São experiências completamente diferentes e que nos dão uma ótima oportunidade de autoconhecimento, liberdade de escolhas e independência.

Durante a viagem encontrei muitas mulheres viajando sozinha. E isso me encorajou a viajar outras vezes, ver que é possível e que as mulheres realmente estão fazendo isso, poder falar com elas. Depois de Santiago, fui para a Colômbia na cidade de Armênia, através do Wordpackers, lá troquei minha estadia pelo meu trabalho como fotógrafa e em 2017 fui para o deserto do Atacama.

Eu comecei a viajar tarde, achava que não era coisa para mim, um sonho bem distante. Mesmo depois que comecei a trabalhar e ter dinheiro para isso, ainda foi um longo processo entender que eu também podia viajar. Em todas as minhas pesquisas pelos blogs de viagem não haviam pessoas negras falando sobre isso, a única mulher em quem me inspirei foi a Cinthya Rachel, que no seu blog fala de diversos temas, e haviam alguns posts onde ela falava sobre as suas viagens, fiquei encantada, acho que foi por causa dela que tive o insight de que eu também podia.

Sisters and Suitcases, é uma comunidade de viagem para mulheres negras. Talvez não nos encontremos, mas não estamos sozinhas.

Sempre me hospedo em hostels, a rotatividade de pessoas é enorme, e posso contar nos dedos as mulheres negras que conheci viajando, foram duas brasileiras em San Pedro do Atacama, conheci um negro norte americano em Medellín e só. Conheci mulheres inglesas, australianas, francesas, chilenas, outras brasileiras brancas e por aí vai. Não percebi que sofri com racismo (talvez alguns olhares estranhos no aeroporto, ainda viajei muito pouco), mas as vezes me sentia desconfortável de ser sempre a única mulher negra nos lugares, a única turista quero dizer. Claro que havia negros nativos nos países, essa não é a questão. A questão é que somos poucos viajando. Negro quando viaja é lido como imigrante, não como turista. E esse é um espaço que sim devemos ocupar, sozinhos ou acompanhados não importa.

Dá medo? Sim, além do medo de sofrer algum tipo de violência, assalto, abuso por ser mulher, eu tenho que pensar no racismo. Acontece, mas não vai me impedir. Infelizmente temos que tentar nos preparar para lidar com esse tipo de agressão, não deixem esse medo te impedir de viajar ou estragar a sua experiência. Eles são o problema e não nós.

Two Global é o Instagram das irmãs Adisa-Farrar, elas são norte-americanas, da Califórnia e registram as suas viagens pelo mundo.

Não vou colocar aqui aquele discurso fraco dos grupos de mochileiros que diz para você pegar a sua mala e ir, que é barato. Viajar não é barato, quem diz isso fala para um grupo específico 99%branco, não é só sair com dois reais por aí. Não é simples tirar três mil reais do bolso assim para quem vive do salário. A gente tem que se organizar a fazer a viagem que cabe no nosso bolso. Listei alguns tipos de viajantes que encontrei:

  • Mochileiro Roots: viaja de carona, troca estadia por trabalho ou dorme na barraca, cozinha as suas comidas, não tem um roteiro fechado, anda muito.
  • Viajante Econômico: pesquisa tudo atrás de uma forma de viajar mais barato, pega ônibus do aeroporto, não usa taxi, fica em hostel numa boa. Economiza um o almoço para jantar num lugar legal.
  • Turista CVC: fecha a viagem com agência, se hospeda em hotel, acha que hostel é bagunça, faz passeio em grupo. Parcela a viagem em 12 vezes até as próximas férias.
  • O Sabático: ou já é rico ou pega a rescisão e o FGTS da demissão e decide gastar numa viagem pelo mundo.
  • Cinco Estrelas: hotéis com muitas estrelas, iates, malas de grife, nem olha a conta dos restaurantes. Não tive contato com nenhum desse tipo.

(Eu sou a viajante econômica que almeja ser sabática algum dia)

Qual seu perfil? Há vários tipos de intercâmbio para quem quer viajar por um longo período, também é uma opção.

Viajar sozinha me fez aprender muito, sobre mim, sobre coragem, sobre conquista e sobre as minhas capacidades que vão além do que pensam sobre mim.

Nós pretas temos o direito de viajar, temos o direito de ocupar todos os espaços, do aeroporto a praias paradisíacas, nós podemos escalar vulcões e mergulhar com tubarões. Então vai preta! Eu quero te encontrar pelo caminho!

Mais sobre o tema:

  • O site Black Girl Fly, fundado pela Gabrielle Victoria desde 2015 uma rede de mulheres que compartilham o mesmo interesse por viagens.

Projetos reúnem negros para viajar pelo mundo e quebrar paradigmas

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.