[Séries] Losers: Surya Bonaly, talento e preconceito no esporte

Surya Bonaly é uma ex-atleta francesa que foi patinadora artística e ficou marcada por ser a única mulher a conseguir realizar um mortal para trás na patinação.

A série Losers da Netflix destaca atletas que conseguiram transformar as suas derrotas em algo positivo e mudar a vida deles.

No episódio “Julgamento” conhecemos a história de Surya, uma garota francesa que foi adotada por um casal ainda bebê e quando criança era boa em todos os esportes em que praticava, se consagrando campeã na ginástica artística ainda aos 11 anos de idade, mas Surya também gostava muito de patinação artística e ainda aos onze anos foi descoberta pelo técnico da seleção francesa, Didier Gailhaguet, e passou a ser treinada por ele. Seguindo o seu sonho Surya e seus pais se mudaram para Paris para perseguir a carreira da menina.

Os resultados começaram a vir muito rápido dada a aptidão que a atleta tinha para os esportes, juntando com a sua força física e talento inato. Ainda adolescente ela já fazia parte da elite de atletas da patinação no mundo, com 18 anos ela já era tricampeã nacional, campeã europeia e campeã mundial júnior. Ela já almejava sonhos altos, mas havia algo que Surya nunca conseguiu vencer, mesmo sendo tão talentosa e conforme ela avançava nas competições o preconceito e o racismo contra a atleta ficava mais evidente. Conforme ela avançava em competições internacionais a rejeição contra a atleta ficava mais nítida.

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A patinação artística é um esporte elitista e racista que tem na figura da mulher branca, magra o seu ideal de competidora, onde eles destacam a graciosidade e beleza dos movimentos das “princesas do gelo” e Surya não era nada disso aos olhos dos juízes, por mais que ela treinasse seus movimentos para parecer mais “graciosa” e aperfeiçoasse a sua técnica, ela era rotulada como “exótica” e “diferente” nas competições que participava. Sem falar do claro preconceito dos juízes ao dar as notas para a atleta.

Em sua primeira final do Campeonato Mundial em 1993 ela perdeu, mesmo tendo feito mais movimentos considerados difícieis do que a sua adversária. Na sua segunda tentativa de ganhar um mundial, em 1994 no Japão, Surya liderou toda a competição, mas perdeu para a japonesa Yuka Sato que foi a última a se apresentar. Surya não representava a princesa do gelo que eles queriam e por mais que se esforçasse eles nunca a deixariam chegar ao topo.

Frustrada ao receber a medalha de segundo lugar ela não aceitou a derrota e retirou a medalha aos prantos, se recusando a subir ao pódio. O seu gesto foi considerado antidesportivo e Surya mais uma vez foi julgada como rebelde e inadequada por não aceitar o seu lugar.

Surya Bonaly ainda competiu em mais um Mundial em 1995, ficando em segundo lugar novamente. Já no final de sua carreira Olímpica em 1998, Surya foi responsável por mais um feito e foi um belo de um dedo do meio para os juízes da patinação. Ela estava com uma contusão e as pessoas já não estavam esperando uma boa apresentação dela, mas Surya surpreendeu a todos ao realizar um movimento proibido na patinação. Ela executou um mortal para trás caindo com apenas um pé, movimento que até hoje não conseguiu ser reproduzido por outros patinadores, homens e mulheres, o público foi a loucura, mas Surya foi penalizada e acabou em 10º lugar na classificação final.

Em nove anos de carreira como amadora Surya foi 9 vezes campeã francesa, 5 vezes campeã europeia e 3 vezes vice campeã mundial. Após a olimpíada de 1998 ela se tornou patinadora profissional e pode enfim ser livre para se apresentar da maneira que ela queira.

Atualmente Surya Bonaly vive nos EUA e dá aulas de patinação incentivando meninas negras a praticarem o esporte.

Tânia Seles

Sou formada em Artes Visuais, apaixonada por arte, música, livros e HQs. Editora nos blogs Las Pretas e Sopa Alternativa.