Tudo que você gostaria de saber sobre Baby Hair

Cabelos crespos e cacheados são extremamente versáteis, já falamos de box braids, dreads, tranças nagô e turbantes. Agora chegou a hora de falar de uma finalização delicada e responsável por emoldurar o rosto de inúmeras maneiras, só depende da sua criatividade. Vamos falar do Baby Hair.

O que os norte americanos chamam de baby hair são os cabelinhos mais finos que nascem na borda da nossa testa, têmporas e costeletas. Com gel e uma escovinha (pode ser escova de dente mesmo) eles podem ser modelados de muitas formas diferentes.

Josephine Baker
Josephine Baker

Vou colocar aqui algumas informações que encontrei sobre a história desse estilo de penteado de acordo com as pesquisas online.

Na década de 1920 Josephine Baker foi considerada a primeira mulher a usar o estilo, Josephine era uma dançarina, ela teve papel importante como espiã contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, foi condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Francesas. Josephine é a inspiração para a personagem que passou por whitewashing Betty Boop, criada pela Paramount Pictures.

Mas é importante voltar ainda mais no passado e lembrar que antes de serem sequestradas e escravizadas as populações pretas no continente africano já tinham o hábito de enfeitar os cabelos, fazer penteados e usar acessórios com diversos significados dentro das diferentes sociedades em que viviam. Desde sua origem, posição social, status familiar e religiosidade.

Quando sequestrados foram obrigados a abandonar os pentes, argilas e óleos necessários para cuidar dos cabelos. Nessas condições eles tinham poucas opções como usar as ferramentas de trabalho para cortar o cabelo, as tranças nagô (também conhecidas como cornrows ou tranças rasteiras) ou usar tecidos e bandanas para esconder os cabelos. O nosso cabelo foi impedido de florescer dentro do mundo dos brancos que tinham a intenção de tirar a nossa humanidade.

Nos Estados Unidos depois de liberta, a população preta teve que se integrar a sociedade que seguia sendo racista. A solução é encontrar modos de se embranquecer para sobreviver. Assim cabelos alisados tornam-se o caminho para ser um “negro aceitável” um “negro respeitável” dentro da classe média americana, o grupo onde o negro era autorizado a trabalhar com brancos desde que se enquadrasse nos requisitos estéticos e de comportamento. Então, o cabelo deveria parecer arrumado, não selvagem e, de acordo com Harriette Cole, consultora de imagem que explica no livro Hair Story: Untangling The Roots of Black Hair in America, quando falamos de cabelos para afro-americanos o objetivo é ter os cabelos lisos e ondulados, completamente organizado, o alisamento é uma forma de abraçar o embranquecimento.

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Através das décadas os cabelinhos colados na testa continuaram fazendo parte de diversos estilos e penteados. Em 1970 nessa foto da família Jackson podemos ver as irmãs usando baby hair. Empoderamento dentro do movimento Black Power que ganha força nessa década, temos LaToya Jackson, Angela Davis e Nina Simone nesse grupo.

Família Jackson no jardim de casa.

Nesse período também é quando os cabelo naturais voltam a ser usados. Quando pretos voltam a ver seus cabelos naturais como bonitos e o alisamento torna-se uma opção, não mais uma imposição.

Outro fator importante de pontuar é que mulheres negras sofreram muito com os padrões estéticos, principalmente nossos cabelos que ainda hoje não são completamente aceitos na sua forma natural. Quando os processos de alisamento começaram, os produtos químicos eram muito fortes e haviam sérios efeitos colaterais para o couro cabeludo como as queimaduras e o corte químico. E a tração dos cabelos por causa da colocação incorreta de box braids ou apliques também pode ser a causa da queda e quebra de cabelo, consequentemente o Baby Hair também foi uma solução encontrada para esconder esses efeitos, essa região da cabeça é a mais sensível para o crescimento dos cabelos que são mais frágeis. Ter esses cabelinhos na testa sempre foi um problemas pra mulheres negras e o Baby Hair é uma forma complexa de enriquecer um penteado ao mesmo tempo que ‘resolve’ o problema dos cabelinhos.

Na década de 1990 e outra vez no final dos anos 2010 o estilo volta com força junto com o novo Black Natural Hair Movement. Na década de 1990 ele é popularizado Rozonda Thomas, do grupo TLC e Missy Elliot. Ao mesmo tempo comunidades latinas como as Cholas, uma subcultura mexicana que surgiu no sul da Califórnia simultaneamente, tinha como sua marca a sobrancelhas finas e desenhadas e o baby hair super estilizados. Temos como exemplo Jennifer Lopez. Um estilo amado também por mulheres latinas e afro-latinas.

Zoe Kravitz, Jennifer Lopez e Yara Shahidi
Zoe Kravitz, Jennifer Lopez e Yara Shahidi

O Baby Hair style é cíclico no mundo da moda e das celebridades sendo inclusive copiado de maneira controversa por pessoas brancas em passarelas e por grandes artistas em editoriais de moda, mas a sua origem é bem preta e tem a força da resistência do nosso povo. A Beyoncé disse assim:

“I like my baby heir with baby hair and afros.” — Beyoncé

E nós dizemos Amém.

 

Fontes:

How We Do: Edges — The Origins of Baby Hair x Baby Tress
The History of Baby Hair
VOCÊ SABE O QUE É BABY HAIR?
Kim K Has To Be Stopped: A History of Baby Hairs & Gelled Down Edges
Josephine Baker
HOW BABY CURLS BECAME A VEHICLE FOR CREATIVE EXPRESSION
Here Are A Few Things White People Seem To Be Really Confused About

Katy Illy

Preta, feminista, da quebrada de São Paulo, fotógrafa. Escrevo com luz e me arrisco nas palavras. Nado pra não me afogar. Danço pra não enferrujar.